quarta-feira, 9 de novembro de 2016

“Há um terrorismo de base que emana do controle do dinheiro sobre a terra” - Papa Francisco




"O colonialismo ideológico globalizante procura impor receitas supraculturais que não respeitam a identidade dos povos. Há os que seguem por outro caminho que é, ao mesmo tempo, local e universal. 

No entanto, esta germinação, que é lenta, que tem os seus tempos como toda gestação, é ameaçada pela velocidade de um mecanismo destrutivo que age em sentido contrário. 

Existem forças poderosas que podem neutralizar o processo de amadurecimento de uma mudança que seja capaz de deslocar o primado do dinheiro e colocar novamente no centro o ser humano. 


Esse “fio invisível”, essa estrutura injusta que liga todas as exclusões que hoje alguns sofrem, pode consolidar-se e transformar-se em um chicote, um chicote existencial que, escraviza, rouba a liberdade, fere sem misericórdia alguns e ameaça constantemente os outros, para abater a todos como gado até onde quer o dinheiro divinizado.


Quem governa então? O dinheiro. 

Como governa? Com o chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, social, cultural e militar que gera sempre mais violência em uma espiral descendente que parece não acabar nunca. 


Quanta dor, quanto medo! Há – eu disse recentemente –, há um terrorismo de base que emana do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade. Deste terrorismo de base se alimentam os terrorismos derivados, como o narcoterrorismo, o terrorismo de Estado e aquele que alguns erroneamente chamam de terrorismo étnico ou religiosos.

Nenhum povo, nenhuma religião é terrorista. É verdade, existem pequenos grupos fundamentalistas em todos os lugares. Mas o terrorismo inicia quando “é expulsa a maravilha da criação, o homem e a mulher, e colocado ali o dinheiro”. Esse sistema é terrorista.

Nenhuma tirania se sustenta sem explorar os nossos medos. Por isso, toda a tirania é terrorista. E quando este terror, que foi semeado nas periferias com massacres, saques, opressão e injustiça, explode nos centros com diversas formas de violência, inclusive com atentados odiosos e covardes, os cidadãos que ainda conservam alguns direitos são tentados pela falsa segurança dos muros físicos ou sociais. 


Muros que fecham alguns e exilam outros. Cidadãos murados, aterrorizados, de um lado; excluídos, exilados, ainda mais aterrorizados, de outro. 

O medo é alimentado, manipulado... Porque o medo, além de ser um bom negócio para os mercadores de armas e de morte, nos enfraquece, nos desestabiliza, destrói as nossas defesas psicológicas e espirituais, nos anestesia diante do sofrimento alheio e, no final, nos torna cruéis. 


O medo endurece o coração e transforma-se em crueldade cega que se recusa a ver o sangue, a dor, o rosto do outro.

Que passa no mundo de hoje que, quando se produz a bancarrota de um banco, imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo, mas quando se produz esta bancarrota da humanidade não há nem uma milésima parte para salvar a estes irmãos que tanto sofrem? E assim o Mediterrâneo se converteu num cemitério, e não somente o Mediterrâneo... tantos cemitérios junto aos muros, muros manchados de sangue inocente.


Quando ouvimos que se festeja a morte de um jovem que talvez tenha errado o caminho, quando vemos que se prefere a guerra à paz, quando vemos que se difunde a xenofobia, quando constatamos que ganham terreno as propostas intolerantes; por trás desta crueldade que parece massificar-se existe o frio sopro do medo.

Todos os muros caem. Todos. Não nos deixemos enganar. Continuamos a trabalhar para construir pontes entre os povos, pontes que nos permitem derrubar os muros da exclusão e da exploração.


Devemos ajudar a curar o mundo da sua atrofia moral. Este sistema atrofiado é capaz de fornecer alguns implantes cosméticos que não são verdadeiro desenvolvimento: crescimento econômico, progressos tecnológicos, maior “eficiência” para produzir coisas que se compram, são usadas e jogadas fora, envolvendo-nos a todos em uma vertiginosa dinâmica do descarte... mas não permite o desenvolvimento do ser humano na sua integralidade, o desenvolvimento que não se reduz ao consumo, que não se reduz ao bem-estar de poucos, que inclui todos os povos e pessoas na plenitude da sua dignidade, usufruindo fraternalmente a maravilha da criação. 

Este é o desenvolvimento do qual temos necessidade: humano, integral, respeitoso com a Criação.


Sabemos que enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.

Por isso, disse e repito, “o futuro da humanidade não está somente nas mãos dos grandes líderes, das grandes potências e das elites. Está, sobretudo, nas mãos dos povos; na sua capacidade de organizar-se e também nas mãos que irrigam, com humildade e convicção, este processo de mudanças” 


Gostaria, para concluir, pedir-lhes para continuar a combater o medo com uma vida de solidariedade e humildade em favor dos povos e especialmente daqueles que sofrem. Vocês vão errar muitas vezes, todos erramos, mas se perseveramos neste caminho, cedo ou tarde, veremos os frutos. 

E insisto, contra o terror, o melhor remédio é o amor. O amor tudo cura."
Papa Francisco

*Trecho do discurso no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares - 05/11/2016





Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/562030-ha-um-terrorismo-de-base-que-emana-do-controle-do-dinheiro-sobre-a-terra-denuncia-papa-francisco
http://br.radiovaticana.va/news/2016/11/05/papa_fala_no_ii_encontro_dos_movimentos_populares/1270367




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