sábado, 24 de setembro de 2016

"OS DEUSES ESTÃO DENTRO DE NÓS, NÃO ESTÃO FECHADOS NOS TEMPLOS" - Arun Gandhi




Só pelo sobrenome, Arun Gandhi dispensaria apresentações. Aos 82 anos, o neto de Mahatma Gandhi dedica-se a manter viva a cultura de paz e o conceito de não violência que seu avô espalhou pelo mundo no início do século passado. Foi diretamente com ele que o pacifista aprendeu a ser um “fazendeiro da paz”, como se define. 

"Me vejo como um “fazendeiro da paz”. Eu saio para o campo, germino minhas sementes e espero um dia ter uma boa plantação de pacificadores. Eu não posso mudar as pessoas e fazer com que elas acreditem no que eu acredito. Isso é com cada um. Eu não posso forçar ninguém a mudar. Ninguém pode. Tem que vir de dentro."


Ativista político atuante em causas humanitárias, o sul-africano Arun Gandhi nascido em 1934 vivenciou na juventude a era de preconceito e ódio do apartheid. Entre os 12 e os 14 anos, viveu com o avô na África do Sul , até o assassinato de Gandhi por um fanático hinduísta, em 1948.

Crescendo sob as leis discriminatórias apartheid da África do Sul, ele foi espancado por "brancos" sul-africanos por ser muito negro e por negros sul-africanos por ser muito branco. Assim, Arun procurou a justiça de olho-por-olho. No entanto, ele aprendeu com seus pais e avós que Justiça não significa vingança, significa transformar o oponente através do amor e do sofrimento. 

Em 1987, quando se mudou para os Estados Unidos com a esposa, fundou o "Instituto MK. Gandhi para a Vida Sem Violência" para dar continuidade aos ensinamentos de Mahatma Gandhi. 

Arun  e sua esposa Sunanda (morta em 2007)  viveram e trabalharam na Índia e durante 30 anos. Arun foi jornalista do The Times of India. Juntos iniciaram projetos para a elevação social e econômica dos oprimidos usando como espinha dorsal a filosofia de Gandhi de não-violência. 

Os programas mudaram a vida de mais de meio milhão de pessoas em mais de 300 aldeias e ainda continuam a crescer. 

Apesar de ser autor de vários livros, compartilha do que o avô dizia sobre não escrever sua filosofia: lições eternizadas num papel viram dogmas e dogmas abrem espaço para fanatismo. 



"Religião não é trazer paz. É explorar as pessoas. Não é uma coisa boa. Temos que ter maior entendimento sobre nossas crenças. É um dos maiores problemas hoje em dia."

Arun Gandhi segue os preceitos que aprendeu durante a convivência com um dos maiores pacifistas de nosso tempo e ressalta que a construção de um cotidiano sem violência deve partir de cada um. 

“Os deuses estão dentro de nós, não estão fechados nos templos. Não adianta praticarmos a paz apenas dentro das igrejas. O meu avô acreditava que a religião mais verdadeira sempre foi servir aos pobres”, afirma.


Arun acredita numa espiritualidade longe das religiões, onde cada um possa encontrar dentro de si, o verdadeiro sentindo do amor divino.

"As escrituras das religiões, por exemplo, foram escritas milhares de anos atrás. E nós lemos aquilo e achamos que são verdadeiras ainda hoje. E na verdade não são totalmente verdade hoje. As circunstâncias mudam, a história muda, as pessoas mudam e as filosofias também precisam mudar junto com elas. As pessoas que hoje estudam filosofias deveriam interpretá-las e fazer com que sejam aplicáveis hoje."

Sereno, o neto de Gandhi sempre levantou temas sociais importantes. 


"Uma das coisas que digo é que o jeito mais fácil de matar uma filosofia é escrevê-la. No momento em que ela é colocada num livro, ela vira um dogma. A filosofia precisa ser relevante para o hoje. Então o que meu avô escreveu 50 anos atrás era para aquela circunstância e aquele tempo, não necessariamente para hoje. Precisamos aprender a mudar e pegar a essência do que ele diz e a essência é de que deve haver mais respeito e compreensão entre as pessoas."

Arun Ghandi sempre reafirma que cada um deve buscar continuamente a verdade dentro de si. 


Os pais seriam os primeiros a plantar essas sementes nos filhos. “Eu cresci em uma família em que acreditávamos na não violência dentro e fora de casa. O meu avô sempre dizia que a nossa mente deve ser como um quarto de janelas abertas, deixando a brisa entrar, mas sem se deixar levar por essas brisas. Temos de lembrar que a paz não é inerte, é o trabalho corajoso de quem faz despertar uma nova consciência nos homens”, ensina.

Arun é o maior divulgador da filosofia do avô e comanda um instituto de educação pela não violência na Índia. Gandhi acreditava que era impossível tentar transformar a sociedade antes de transformar a si mesmo.


“É preciso mudar individualmente os nossos próprios pensamentos e atitudes e, depois, expandir para os nossos familiares e a outras pessoas que convivemos”, detalha Arun. 

Em relação ao sistema educacional, ele pondera que, atualmente, as crianças aprendem apenas sobre dinheiro e carreira:


"Atualmente as crianças só aprendem a ganhar dinheiro e ter uma carreira. Isso não é o bastante. Elas têm de aprender sobre relacionamento, caráter, valores. Com isso, a educação estaria completa. Precisamos ensiná-las sobre a vida, sobre elas mesmas e como elas podem se tornar pessoas melhores. O modo como disciplinamos as crianças também está errado. Plantamos as sementes da violência nelas quando as punimos por algo que fizeram de errado. Isso vai lhes dar a ideia de que qualquer pessoa que faz algo errado precisa ser punida. Na não-violência, substituímos os castigos pelas penitências. Eu não era punido quando fazíamos algo errado. Meus pais jejuavam por um ou dois dias e me explicavam que não estavam comendo porque falharam em minha educação. Desse modo eles me mostravam o amor, não a violência. "



O neto de Gandhi afirma, ainda, que: "As religiões não cumprem os próprios princípios que pregam e acabam por gerar mais ódio e conflito, no lugar de promover paz e felicidade." 

Em sua experiência pessoal, Arun se manteve distante das religiões dogmáticas, embora o seu avô Gandhi tenha seguido o hinduísmo, tendo uma vida marcada pela fé.

Escritor, hoje ele viaja pelo mundo palestrando sobre questões como educação, inclusão e violência.







Baseado nas seguintes fontes:
http://www.metropoles.com/vida-e-estilo/comportamento/religiao-e-para-explorar-pessoas-diz-neto-de-gandhi-ao-metropoles
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2016/09/23/interna_cidadesdf,550047/neto-de-gandhi-o-sul-africano-arun-participa-de-encontro-em-brasilia.shtml
http://www.triada.com.br/espiritualidade/fe_oriental/aq173-201-915-3-mahatma-gandhi-a-vida-do-mito.html



3 comentários:

  1. Eu procura viver a expiritualidade respeitando as pessoas que tenham crença diferente da minha pra mim isso tambem è nao violencia,o mundo muda sim, mais infelismente muita gente vive no tempo parado sem viver
    de verdade.

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  2. Muito bom.como atingir essa paz? Essa paz verdadeira e nao a demagógica e fingida que vemos em certas ordens?

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  3. Muito bom.como atingir essa paz? Essa paz verdadeira e nao a demagógica e fingida que vemos em certas ordens?

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