quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Ambivalências




Nenhum de nós é pura luz.  

Nessa nossa natureza humana, o excesso de luz cega, por isso, convivemos com nossa ambivalências e temos que administrá-las.


Não sei amar, mas tento praticá-lo.

Não sei perdoar, mas todos os dias tenho oportunidades de exercer-lo. 

Não sei ser bom, e a vida me enche de chances para que eu seja.


Não sou humilde, mas seria tolo se não admitisse que a falta de humildade mata; por isso exercito-a.

Não sou essencialmente grato, e então presto atenção na vida e encontro milhões de razões para ser.

Quando me enxergo, vejo o que não gostaria de ver. 


Quando me sinto mais do que sou, minha natureza me chama de volta e, seja pelas acentuações de dores, o instalar-se de desconfortos, o revelar de ambiguidades, sou obrigado a reconhecer que nesse corpo frágil, de pele, carne, osso e sangue, somos todos aprendizes, expostos ao Mistério, intocável, incontível, inexorável, inacessível por completo, no entanto, presente, visível, viável em mim.


Assim somos nós, seres improváveis, contraditórios, luz pontuada pela escuridão, carregando as alegrias de ser e as dores de existir, convivendo com o agora e o ainda não, finitos, mortais, perecíveis enquanto algo lateja lá dentro dizendo que não termina aqui, que não somos só isso, que estamos fora de casa.


Flavio Siqueira







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