quinta-feira, 21 de julho de 2016

O MAL EXISTE?


Ao assistirmos atônitos as atrocidades impostas pelo grupo ISIS, imediatamente somos impelidos a crer que eles agem a serviço do mal. Ou pior ainda, que eles representam o mal na terra.

Os noticiários estão repletos de manchetes sobre os crimes mais brutais e hediondos. Além disso e não menos importante, a forma abominável como a humanidade trata os outros seres vivos, com tamanho desprezo, nos faz questionar a verdadeira natureza do ser humano.

A mística muito conhecida de que "O mal é resultado da falta de Deus nos corações. É como o frio que surge quando não há calor, ou a escuridão que acontece quando não há luz.", só nos remete a dualidade em que estamos inseridos.



É uma grande dicotomia entender a vida entre sombra e luz. Entre o mal e o bem.

Será que o mal existe? Ou ele é apenas um conceito? Um valor?

Desde que o ser humano passou a raciocinar, ou seja, observar, apreender, comparar, experimentar, questionar e concluir, sempre disposto a mudar caso provado outra conclusão, os conceitos do bem e do mal não mais se limitaram aos escritos "sagrados". 

Para alguns filósofos, o bem é inato e o mal é aprendido.  


Esse pressuposto remete a percepção de que o bem é nossa verdadeira essência, nossa natureza ultima enquanto seres espirituais,  e o mal é tudo que adquirimos em nossa experiência na matéria.

O que vai contra a nossa natureza é o Mal.  Todo o resto é o Bem”.  Paulo Coelho




Aquele que mata em nome da fé está propagando o mal, ou respondendo a um ensinamento sagrado? 

Esse "ensinamento" foi aprendido, ou faz parte da própria natureza de quem o pratica? 

Enquanto permanecemos inebriados pelas mil crenças do mundo material, essa grande alquimista que tudo transforma; nossa essência é transmutada, deformada.

Aquilo que somos em verdade, busca a transcendência de si mesmo e da sua condição existencial.



Evidentemente, todo ser humano deseja ser bom. Ninguém anseia por ser mau. Todos amam o bem por inclinação natural, porque sabem que a paz e a felicidade não nascem do Mal. 

O problema está no que distingue o Bem do Mal, nas diversas culturas e crenças.

Mais uma vez, percebemos que o mal é apenas um conceito vazio. Tomemos como exemplo a Circuncisão Feminina ou Mutilação da Genitália Feminina. Para a lei islâmica é a preservação da honra para a mulher, portanto um benefício na concepção deles. Para os não adeptos dessa religião, a mutilação da genitália feminina é uma barbárie. 



Para o budismo, por exemplo, o Mal está no conceito do "eu".

Segundo os ensinamentos de Budha, a ideia do Eu é uma crença falsa e imaginária, que não corresponde a nada na realidade, e ela é a causa de pensamentos perigosos de "meu" e "minha", dos desejos egoístas e insaciáveis, de apego, da raiva, da maldade, dos conceitos de orgulho, do egoísmo e outras sujeiras, impurezas e problemas. 

Ela é a fonte de todos os problemas do mundo, desde os conflitos pessoais até a guerra entre as nações. Toda agressão e violência no mundo e todo medo que há, junto com todos os sofrimentos do nascimento, doença, envelhecimento e morte, tanto agora quanto em vidas futuras, tudo deriva do auto-apego, do apego ao nosso não-existente “eu”.



Para os espíritas, o bem é tudo o que é conforme à lei de Deus, e o mal é tudo o que dela se afasta.  Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringir essa lei.

Evidente que um aborígene que vive nos campos da Austrália, e não conhece a  "lei de Deus" dos espíritas, não tem como segui-la.

O cristianismo introduziu o conceito de céu e inferno, onde a separação do bem e do mal fica estabelecida. 



"O inferno é o estado da alma de quem negou a Deus de propósito, livre e voluntária, mesmo sabendo do seu amor infinito e de sua bondade. É reservado aos que recusam até o fim de sua vida crer e converter-se, e no qual se pode perder ao mesmo tempo a alma e o corpo."

Por outro lado, o céu é reservado aos que estiverem unidos a Cristo e seus ensinamentos. Estes não serão mais feridos pelo pecado, pelas impurezas, pelo amor-próprio, que destroem ou ferem a comunidade terrestre dos homens. Deus se revelará de maneira inesgotável aos eleitos, será a fonte inexaurível de felicidade, de paz e de comunhão mútua.


De forma simplista, quem não crer em cristo e seus ensinamentos, pratica o mal e vai padecer nas profundezas do inferno.


Provavelmente, esse deve ser o motivo pelo qual, a maioria das religiões cristãs, acreditam em exorcismo.  O exorcismo é um ritual executado por uma pessoa devidamente autorizada para expulsar espíritos malignos (ou demônios) de outra pessoa. 

Trata-se de uma ação constituída de palavras e gestos (imposição das mãos, sinal da cruz, aspersão de água benta), pela qual o padre (ou pastor), liberta e protege do mal em nome de Deus. 

Nas igrejas evangélicas, o exorcismo acontece diante do público e o pastor pode até chacoalhar o possuído.

Considerando que para um Hindu por exemplo, a água de uma torneira, não tem nenhum efeito purificador, apenas por ser benzida por um padre, ou que, para um muçulmano, falar em "nome de Jesus", não significa absolutamente nada; pode-se concluir que essa cerimonia, só tem efeito para os cristãos. Ninguém executa um exorcismo em nome de Alá ou de Buda, por exemplo.

Seria o mal uma criação das religiões? Um conceito transmitido durante séculos e aderido sem questionamento?


Para Nietzsche (filosofo), a religião, especialmente o cristianismo no Ocidente, criou valores como o bem e  mal, que limitam o homem a se superar. 

A expressão “instinto de rebanho” em Nietzsche vem talvez de um conceito religioso, no qual a moral ensina ao indivíduo a só atribuir valor em função do “rebanho”, que também poderia ser traduzido em Estados e sociedades. 

O homem virtuoso, “escravo” das expectativas dos outros, das boas e das más opiniões, faz-se dissimulado, ao mesmo tempo culpado e infeliz.

Para Nietzsche, os valores (de bem ou mal) não são verdades divinas imutáveis e sim criados por nós, portanto dependentes do tempo e do espaço em que se manifestam.  O mal apresenta-se como um conceito relativo, não mais absoluto.

Os critérios religiosos de bondade e compaixão que nos foram impostos acabaram se tornando um instrumento de barganha divina em troca de uma suposta imortalidade e felicidade eternas. 



O mal está em nosso distanciamento de nós mesmos. Está na completa identificação com a matéria. Na mais absoluta  ausência de envolvimento com nosso mundo espiritual. O mal está na profunda cegueira sobre quem somos em verdade.

O mal está fora de todos nós. Está no jogo incessante da vida,  na densidade do mundo manifesto.

O mal, é tudo que não somos, mas que esquecemos quando partimos para essa jornada que se chama vida.


"Existem dois lobos que permeiam minha vida: O lobo do Mal e o lobo do Bem. Ambos disputam o poder sobre mim. E quando me perguntam qual lobo é vencedor, respondo: O que eu alimento" - Proverbio Indígena









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