sábado, 28 de fevereiro de 2015

PLATÃO E A ATLANTIDA



A lenda da Atlântida, que se manteve sempre viva na imaginação popular, falou também de muito perto a numerosos autores, tendo gerado uma literatura específica, na qual se formularam hipóteses sobre seu surgimento e destruição.

Segundo a lenda, há muito tempo teria existido um grande continente, chamado Atlântida ou Atlantis. Situava-se no meio do oceano que recebeu o seu nome - o oceano Atlântico- em frente às Portas de Hércules de que nos fala a Mitologia Grega. Essas portas erguiam-se no local onde hoje está o Estreito de Gibraltar, fechando por completo o Mar Mediterrânico.



Atlântida teria sido um paraíso, uma lendária ilha cuja primeira menção conhecida remonta a Platão em suas obras "Timeu ou a Natureza" e "Crítias ou a Atlântida". 

Era composta de exóticas paisagens, com clima agradável e belas florestas, ao lado de extensas e férteis planícies. Os animais eram dóceis, porém fortes. E havia as cidades, grandes e pequenas. Os atlantes eram senhores de uma civilização muito avançada. Palácios e templos cobertos de ouro e outros metais preciosos destacavam-se numa paisagem onde o campo e a cidade conviviam em harmonia. Jardins, fontes, ginásios, estádios, estradas, aquedutos, pontes. Estavam por todo o lado e a disposição de todos. Desta abundância nasceram e prosperaram as artes e as ciências. Eram muitos os artistas, músicos e grandes sábios.


Mas não viviam completamente tranquilos, pois não estavam sozinhos no mundo. Em razão disso, apesar de cultivarem a paz e a harmonia nunca deixaram de praticar as artes da guerra, já que vários povos, movidos pela inveja, cobiçando a sua riqueza, tentavam conquistar o continente. 

As vitórias obtidas contra os invasores foram tão grandiosas que logo despertaram  o orgulho e a ambição de passar ao contra ataque. Já não pensavam em apenas defenderem-se, mas em aumentar o território de Atlântida. Assim o poderoso exército Atlante preparou-se para a guerra e aos poucos foi conquistando grande parte do mundo conhecido, dominando vários povos e várias ilhas em seu redor, uma grande parte da Europa Atlântica e parte do Norte da África. 




Os seus corações até então puros foram endurecendo como as suas armas. Enquanto se perdia a inocência nascia o orgulho, a vaidade, o luxo desnecessário, a corrupção e o desrespeito para com os deuses. Poseidon convocou então os outros deuses para julgar os atlantes e decidiu aplicar-lhes um castigo exemplar. E como consequência vieram terríveis desastres naturais.

As terras da Atlântida estremeceram violentamente, o dia fez-se noite, e logo em seguida surgiu o fogo queimando as florestas e campos de cultivo. O mar inundou a terra de Atlântida com ondas gigantes, engolindo as aldeias e cidades. Em pouco tempo Atlântida desaparecia para sempre.


A Atlântida de Platão 




Foi esse filósofo grego quem trouxe ao mundo a história do continente perdido da Atlântida. Sua história começou a surgir para ele em ao redor de 355 A.C. Ele escreveu a respeito dessa terra chamada Atlântida em dois de seus diálogos – Timeus e Critias, ao redor de 370 A.C. Platão disse que o Continente ficava no Oceano Atlântico, próximo do Estreito de Gibraltar até sua destruição 10.000 anos antes.

A lenda aparece pela primeira vez nos diálogos Timeu e de Crítias, do filósofo grego Platão. Numa viagem ao Egito, o legislador ateniense Sólon teria ouvido de sacerdotes de Sais a tradição sobre a Atlântida. Seu neto Crítias, por sua vez, a narrara a Sócrates. 



A Atlântida de Platão seria uma ilha vastíssima, e fora habitada pelos atlantes, descendentes de Atlas, filho de Poseidon (deus do mar). Os atlantes, regidos por leis justas e riquíssimos, tinham empreendido a conquista do mundo mediterrâneo, mas Atenas os repelira. 

Finalmente, a degeneração de seus costumes provocara a ira dos deuses, e um maremoto tragara a Atlântida em um dia e uma noite. Os penhascos que afloravam e o lodo que se acumulou nos baixios tornaram suas paragens, a seguir, inavegáveis. 


Platão descreveu a Atlântida como anéis alternados de mar e terra, com um palácio no centro do “olho de boi”.  Ele usou uma série de diálogos para expressar suas idéias. Um dos personagens de seus diálogos, Kritias, conta uma história da Atlântida que está em sua família por muitas gerações. 

De acordo com os diálogos, houve um poderoso império localizado a oeste dos “Pilares de Hércules” (o que agora chamamos o Estreito de Gibraltar) numa ilha no Oceano Atlântico. Essa nação havia sido estabelecida por Poseidon, o deus do mar. Poseidon era pai de cinco pares de gêmeos na ilha. Poseidon dividiu a terra em dez partes, cada uma para ser governada por um filho, ou seus herdeiros.



A capital da cidade de Atlântida era uma maravilha de arquitetura e engenharia. A cidade era composta de uma série de paredes e canais concêntricos. Bem no centro havia um monte, e no topo do monte um templo para Poseidon. Dentro havia uma estátua de ouro do deus do mar com ele dirigindo seis cavalos alados.  

Aproximadamente 9.000 anos antes do tempo de Platão, após o povo da Atlântida ter se tornado corrupto e cobiçoso, os deuses decidiram destruí-los. 

Um violento terremoto agitou a Terra, ondas gigantes vieram sobre as costas e a ilha afundou no mar para nunca mais ser vista.

Em muitos pontos nos diálogos, os personagens de Platão referem-se à história da Atlântida como uma “história real” . Platão também parece colocar na história muitos detalhes sobre a Atlântida que seriam desnecessários se ele pretendesse usar isso apenas como um instrumento literário.





Em “Timeus”, Platão descreve Atlântida como uma nação próspera que iria expandir seu domínio: “Agora nesta ilha de Atlântida havia um grande e maravilhoso império que governou em toda a ilha e em várias outras, e em partes do continente”, ele escreveu “e depois, os homens da Atlântida dominaram as partes da Líbia dentro das colunas de Hércules até o Egito e a Europa, até a Tyrrhenia.

Platão ainda conta como os atlantes cometeram um grave erro procurando conquistar a Grécia. Eles não puderam resistir ao poderio militar dos gregos e em seguida à derrota, um desastre natural selou seus destinos. “Timeus” continua: “Mas depois ocorreram ali violentos terremotos e inundações e num único dia e noite de infortúnio, todos os seus guerreiros afundaram na terra e a ilha de Atlântida desapareceu nas profundezas do mar.”

Platão conta uma versão mais metafísica da história de Atlântida em “Critias”. Aí ele descreve o continente perdido como o reino de Poseidon, o deus do mar. Essa Atlântida era uma sociedade nobre, sofisticada, que reinou em paz por séculos, até que seu povo tornou-se complacente e cobiçoso. Raivoso com sua queda da graça, Zeus escolheu puni-los, destruindo a Atlântida.


KEFTIU


Há uma lenda egípcia que Sólon provavelmente ouviu enquanto viajava pelo Egito e foi passada a Platão anos depois. A ilha nação de Keftiu, lar de um dos quatro pilares que sustentavam o céu, era considerada uma gloriosa civilização avançada que foi destruída e afundou no oceano. 

Platão provavelmente traduziu “a terra dos pilares que sustentam o céu” (Keftiu) como a terra do titan Atlas (que segurava o céu). Comparações com os antigos registros antigos de Keftiu identificam um número de similaridades com a Atlântida de Platão.

Pelos registros egípcios , Keftiu foi destruída pelos mares em um apocalipse. Parece que Sólon trouxe as lendas de Keftiu para a Grécia, onde ele passou para seu filho e seu neto.

Platão gravou e embelezou a história do neto de Sólon, Critias, o Mais Jovem. Como em muitos escritos antigos, a história e o mito eram indistinguivelmente intermisturadas. 


Quando Platão identificou a localização da terra que ele havia chamado Atlântida, ele a colocou no oeste – no Oceano Atlântico. Na verdade, a lenda egípcia colocava Keftiu a oeste do Egito, mas não necessariamente a oeste do Mediterrâneo. Descrevendo Atlântida como uma ilha (ou continente) no oceano Atlântico, suspeita-se que Platão estava simplesmente equivocado em sua interpretação da lenda egípcia que ele estava recontando.






Existe outra história semelhante à de Atlântida, mais significante em termos de época e geografia... e está baseada em fatos. A civilização minoana tinha uma grande e pacífica cultura baseada na ilha de Creta e reinou aproximadamente em 2200 A.C.. 

Platão preservou suficientes detalhes sobre a terra, que sua identificação agora parece mais similar e muito menos misteriosa que muitos dos seguidores da nova era gostariam. É possível que a Atlântida fosse a terra da cultura minoana, principalmente as antigas Creta e Thera. Se esta hipótese for correta, Platão nunca percebeu que a terra de Atlântida já era familiar para ele.

Os registros arqueológicos mostram que a cultura minoana estendeu seu domínio pelas ilhas próximas do Egeu, aproximadamente de 3000 A.C. até 1400 A.C.. Creta, agora parte da Grécia era a capital do povo minoano, uma civilização avançada, com linguagem, exportação comercial, arquitetura complexa, rituais e jogos.



Parece que as ilhas relacionadas (ex. Santorini/Thera) podem ter sido parte da mesma cultura. Os minoanos eram pacíficos. Foi dito que um palácio de quatro andares em Knossos, Creta, era o capitólio da cultura minoana. A correspondência dos artefatos culturais minoanos com aspectos da lenda de Atlântida fazem com que se pense na identidade das duas. 

A lenda de Platão (egípcia)  também diz que a Atlântida era pacífica – isto é confirmado pela virtualmente completa ausência de armas nas ruínas minoanas e na sua arte – raro para povos daquela época. A lenda egípcia conta que havia elefantes em Keftiu; apesar de presumivelmente não haverem elefantes em Creta, os minoanos eram conhecidos como negociantes de marfim africano e parece que foram o principal acesso ao marfim para o Egito, vinte séculos antes de Cristo.

Os mapas da Atlântida feitos por Platão teriam semelhança com a geografia da antiga Creta.




Também o célebre apocalipse que, de acordo com os egípcios, consumiu Keftiu-Atlântida em um dia e uma noite, tem bases em fatos históricos. Os rastros de evidência conduzem à pequena ilha de Santorini (também conhecida como Thera, fica a 75 km ao norte de Creta) .

A ilha minoana de Santorini, tinha um imenso vulcão. Em 1470 A.C. ele teve uma erupção com uma força que se estima ter sido maior que a do Krakatoa, obliterando tudo sobre a superfície de Santorini. 



Os terremotos e tsunamis resultantes devastaram o resto da civilização minoana, cujos remanescentes foram facilmente conquistados pelas forças gregas. Talvez Santorini fosse a “Atlântida” real.  Os registros de tempo geológico da explosão final do Santorini são muito precisos. O provável quadro seria este: no verão, cerca de 1470  A.C., o Santorini explodiu. 

As cinzas vulcânicas encheram os céus, encobriram o Sol e desencadearam granizo e relâmpagos. Uma pesada camada de cinzas vulcânicas choveu sobre o Egeu, cobrindo as ilhas e as plantações. Terremotos abalaram a terra e estruturas de pedra caíram com o movimento. Quando a enorme câmara de magma do Santorini finalmente entrou em colapso para formar a cratera, enormes tsunamis se espalharam em todas as direções.   


Alguns argumentaram contra esta ideia, observando que Platão havia especificado que a Atlântida havia afundado há 10.000 anos, mas o desastre minoano ocorrera apenas há 1.000 anos. 



Muitos mitos antigos da Grécia narram sua localização na Creta minoana, mais de dez séculos antes de Platão. Dédalo foi supostamente o arquiteto do palácio de Knossos. Lá ainda se podem encontrar ruínas que se acredita terem sido o labirinto onde vivia o legendário Minotauro, o monstro (meio-homem, meio touro) morto por Teseu.

Evolução do mito 

Os próprios neoplatônicos consideraram aquele relato um mito. O Ocidente cristão, na Idade Média, recebeu versões sobre a Atlântida transmitidas pelos geógrafos árabes. 

Tratando-se de ilha submersa, não figurou na cartografia medieval, que registrou contudo outras ilhas lendárias a oeste da Europa, cuja suposta existência se originou de tradições gregas e célticas. 

É possível que a localização de algumas dessas ilhas correspondesse a confusas notícias de viagens reais, como no caso das ilhas Afortunadas, identificadas mais tarde com as Canárias. 


Pode ser que erros de tradução ao longo dos séculos alteraram o que Platão realmente escreveu, ou pode ser que ele estivesse intencionalmente encobrindo os fatos históricos para atingir seus propósitos. Existe ainda uma outra possibilidade – a de que Platão tenha inventado a história da Atlântida.



Mesmo assim, sua história do continente que submergiu cativou as gerações que se seguiram. Outros pensadores gregos, como Aristóteles e Plínio, argumentaram sobre a existência da Atlântida, enquanto que Plutarco e Heródoto escreveram sobre ela como um fato histórico. A Atlântida se tornou parte do folclore em todo o mundo, foi colocada em mapas oceânicos e buscada pelos exploradores.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

“Não há tempo para nada que não seja essencial”.




Oliver Sacks (81 anos), neurologista e escritor britânico ficou conhecido, dentre outras realizações, pelos livros “Tempo de despertar” e “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”. 

A primeira obra, datada de 1973 é um relato baseado em suas próprias experiências como médico e foi posteriormente adaptada e protagonizada por Robert Williams e Robert DeNiro no cinema, obtendo três indicações ao Oscar. 

Seus livros foram traduzidos para mais de vinte línguas e são sucesso de vendas, conquistando diversos prêmios pelo mundo. O neurologista também é membro honorário da Academia Americana de Artes e Letras, da Academia Americana de Artes e Ciências e da Academia das Ciências de Nova Iorque.


Nesta semana, Sacks anunciou a descoberta de um câncer em estágio terminal no fígado. O anúncio se deu por meio de um artigo intitulado “Minha própria vida”, originalmente publicado pelo New York Times no dia 19 de fevereiro.

Ele inicia o texto contando como foi a descoberta da doença:

“Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas a minha sorte acabou – há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Há nove anos, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar da radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados.


Sinto-me grato por ter recebido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, apesar de ser possível desacelerar seu avanço, esse tipo específico não pode ser destruído.”

Sacks ainda fala de como pretende viver de agora em diante:

“Depende de mim agora escolher como levar os meses que me restam. Tenho de viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que conseguir. Nisso, sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava também com uma doença terminal aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha Própria Vida”.

“A vida de um homem não é mais importante para o universo do que a de uma ostra”, escreveu o filósofo escocês David Hume.


Ainda inspirado em Hume: “Tive sorte de passar dos oitenta anos. E os 15 anos que me foram dados além da idade de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) que será publicada nesta primavera; tenho diversos outros livros quase terminados.”

Sacks conta que Hume, no texto citado acima escreve que era “um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as paixões.” 


Relata a seguir que aí se distancia do filósofo: “apesar de desfrutar de relações amorosas e amizades e não ter verdadeiros inimigos, eu não posso dizer (e ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposições moderadas. Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões.”

O médico conta ainda:

“Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altura, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.


Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.

Isso vai envolver audácia, claridade e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de tolice).”

E continua: “Sinto um repentino foco e perspectiva nova. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo mais assistir ao telejornal toda noite. Não posso mais prestar atenção à política ou discussões sobre o aquecimento global.


Isso não é indiferença, mas desprendimento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos – até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Nos últimos dez anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa.

Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.”

E Oliver Sacks conclui seu texto:

“Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial do escritor e leitor.


Acima de tudo, fui um ser sensível, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.”


Texto originalmente publicado em: New York Times, em 19 de Fevereiro.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Tomografia de Escultura de Buda Revela em seu Interior Monge Mumificado




O que parecia ser uma estátua de Buda tradicional que remonta ao século 11 ou 12 foi revelado recentemente ser algo mais. Na realidade, muito mais.

A tomografia computadorizada e endoscopia realizada pelo Museu Drents no Centro Médico Meandro em Amersfoort na Holanda, mostrou que a antiga relíquia guarda os restos mumificados de um monge budista.

A tomografia computorizada, ou TAC, é um exame que consiste na emissão de raios-x através de vários ângulos em torno de um corpo. Segundo o NL Times, a endoscopia foi realizada com um aparelho especialmente construído para realizar o exame à estátua.




Os exames foram supervisionados por Erik Bruijin, um perito em arte e cultura budista, com a ajuda do médico gastroenterologista Reinoud Vermeijeden e do radiologista Ben Heggelman.

O holandês Erik Brujin, liderou o estudo do material e determinou que os restos são de um mestre budista chamado Liuquan, que pertenceu à Escola Chinesa de Meditação e viveu por volta do ano 1100.


Segundo o Siberian Times, entre os monges budistas há a crença de que os corpos mumificados não estão mortos, mas num "estado de meditação avançada".



Mas os exames, uma tomografia computorizada e uma endoscopia, realizados no Meander Medisch Centrum, em Amesfoort, viriam a permitir uma descoberta ainda mais espantosa nas cavidades abdominais da múmia.

Antes da tomografia, os cientistas do Drents sabiam que havia um corpo dentro da estátua, mas o procedimento revelou que os órgãos de Liuquan foram retirados e substituídos por pergaminhos antigos escritos em chinês. 

Além dessa descoberta, foi possível retirar DNA da múmia para a realização de testes. De qualquer forma, a múmia é a primeira a ser estudada dessa forma até hoje, o que mostra o nível de importância da descoberta. 

Além disso, ela é também a única já encontrada até hoje por pesquisadores, segundo o site holandês NL Times.





O Buda, ou Liuquan, já foi transportado para a Hungria, onde estará em exibição no Museu de História Natural da Hungria até maio de 2015. 



Outros casos

Em janeiro, restos mumificados de um homem, aparentemente meditando na posição de lótus, foram descobertos na Mongólia. Acredita-se que a relíquia humana possua em torno de 200 anos de idade, e foi preservada na pele animal.




Segundo Barry Kerzin, famoso monge budista, o homem mumificado , estaria a apenas uma etapa de se tornar um Buda na vida real. Os restos mumificados foram encontrados em 27 de janeiro, na província Songinokhairkhan.

De acordo com Kerzim, o homem mumificado, na verdade, está em uma "meditação muito profunda" e em um estado espiritual raro e muito especial conhecido como 'tukdam'.


 Barry Kerzin
Nos últimos 50 anos, acredita-se que ocorreram em torno de 40 casos semelhantes na Índia com monges tibetanos. "Eu tive o privilégio de cuidar de alguns meditadores que estavam em um estado tukdam”, disse Kerzin, de acordo com notícia divulgada pelo Siberian Times.


A especulação inicial é de que a múmia poderia ser um professor Lama, chamado Dashi-Dorzho Itigilov. Nascido em 1852, ele foi um Buryat Lama da tradição budista tibetana, sendo reconhecido pelo estado natural de seu corpo.







Fonte:http://www.jornalciencia.com/tecnologia/diversos/4674-tomografia-em-estatua-de-buda-revela-esqueleto-humano-em-estado-de-meditacao-e-intriga-cientistas

 http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/cientistas-encontram-mumia-de-mil-anos-dentro-de-estatua-de-buda

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

DETOX NA VIDA - PORQUE A SAÚDE NÃO MORA SÓ NO CORPO




Passou o natal, passou o ano novo, passou o carnaval.
The game is over e a vida real pede passagem.

É nessa hora que a febre detox-vida-nova-entrar-nos-eixos vem com força ainda maior- se é que isso é possível.

Detox vem da ideia de desintoxicar, tirar do corpo tudo o que não lhe faz bem. Louvável, sem dúvida nenhuma. Mas o problema começa quando as pessoas resolvem achar que duas garrafas de suco verde são a milagrosa solução para melhorar suas vidas.



2015 tá aqui na nossa frente e de nada vai adiantar desintoxicar o corpo, se a vida e a alma estão povoadas de hábitos, pessoas, dias e caminhos tóxicos. Parasitas, comodismos, vícios, medos.

Gente tóxica é o que mais tem. Gente cinza, amarga, invejosa, gente que gosta de problema, que gosta de doença, que gosta de discórdia, gente que vive de aparência, gente rasa. E não tem jeito, temos que fugir mesmo, cortar, evitar ao máximo. Bom dia, boa tarde e até logo. Não nos deixemos contaminar.



Não adianta comer chia toda manhã se a gente odeia o emprego e já sai de casa com vontade de voltar. Não dá para achar que o corpo vai estar puro se você não acredita no que faz e passa mais de 40 horas da semana ruminando tarefas infelizes.

Não adianta beber 3 litros de água por dia quando se está num relacionamento que afundou. É cômodo, todos sabemos. Mas a vida é uma só e não dá para ver os dias, meses e anos passarem com migalhas de amor e sem vestígios de paixão.



Não adianta colocar linhaça nas receitas quando só se reclama da vida, dos outros, do país, do calor, da chuva, do trânsito. É um círculo vicioso, quanto mais a gente fala das coisas ruins, menos atenção a gente dá às coisas boas e a vida vai ficando ruim, ruim, ruim.

É ilusão achar que a mudança vem de fora para dentro.
Que a felicidade e a saúde cabem em embalagens plásticas com códigos de barra.

Produtos podem ser ótimos coadjuvantes nessa busca, mas a verdadeira mudança é só o protagonista quem faz.


E eu quero um 2015 detox.

Detox de dias iguais.

Detox de gente ruim.

Detox de maus hábitos.

Detox de inveja.

Detox de relações doentes.


Detox de obsessões.

Detox de pessimistas.





Detox de medo de mudar.

Detox de dias desperdiçados.

Detox de sentimentos pobres.

Detox de superficialidade.

Detox de vícios.

Detox de viver por viver.



E pra fazer detox na vida é preciso coragem. Coragem para mudar, para arriscar, para romper, para fechar ciclos que há muito tempo deveriam ter terminado.

O ano oficialmente começou e a pergunta é: 
vai ter só suco verde ou vai ter detox na vida?

Por Ruth Manus

* Ruth Manus é Advogada, professora de direito internacional e do trabalho, blogueira do Estadão.



Fonte:http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/detox-na-vida/

domingo, 22 de fevereiro de 2015

LUZES DO MUNDO - SHIRIN EBADI


Shirin Ebadi - A Voz Feminina em Favor dos Direitos Humanos


Shirin Ebadi (Hamadã, 21 de junho de 1947) é uma advogada, ex-juíza e ativista dos direitos humanos. Em 10 de outubro de 2003, recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo significativo e pioneiro esforço pela democracia e direitos humanos, em especial direitos de crianças, mulheres e refugiados. Foi a primeira cidadã iraniana e a primeira mulher muçulmana a receber um Nobel.

Em 2009, o prêmio teria sido confiscado pelas autoridades iranianas, alegação desmentida pelo governo de Teerã. Se verdade, ela teria sido a primeira laureada na história do Prêmio Nobel a ter seu prêmio confiscado.

Desde junho de 2009, Ebadi vive exilada no Reino Unido por causa da crescente perseguição aos cidadãos iranianos críticos do regime de Teerã.



Shirin Ebadi nasceu em Hamadã, onde o seu pai, Mohammad Ali Ebadi, era um renomado professor de Direito Comercial. A sua família mudou-se para Teerã em 1948.

Em 1965, foi admitida no curso de Direito da Universidade de Teerã e em 1968 concluiu a licenciatura. Em março de 1969 tornou-se a primeira mulher iraniana a ser nomeada juíza. Prosseguiu os seus estudos na Universidade de Teerã, tendo concluído um mestrado em 1971. 

Em 1975 tornou-se na primeira mulher iraniana a exercer o cargo de juíza, chegando a presidir o tribunal de Teerã. 

A crescente islamização do país, com a passagem de uma ditadura laica para um regime teocrático e o culminar na revolução islâmica de 1979, fez dela uma resistente.

Ayatollah Khomeini, considerando que "a magistratura é incompatível com o carácter demasiado emocional das mulheres", forçou-a abandonar o cargo. Ela e outras mulheres foram destituídas da magistratura e apenas lhes foi permitido realizar trabalhos administrativos nos tribunais. 



Após vários protestos, acabaram sendo nomeadas "especialistas em leis" pelo Ministério da Justiça. Posteriormente, Shirin Ebadi pediu aposentadoria antecipada, por verificar que a sua situação profissional não evoluía.

Durante vários anos, solicitou repetidamente autorização para exercer advocacia privada. Depois de várias rejeições, a autorização foi concedida em 1993. Até essa data escreveu diversos livros e artigos que a tornaram conhecida.

Shirin Ebadi passa a exercer a advocacia, é uma ativista empenhada pelos direitos humanos, tendo se envolvido numa campanha a favor do estatuto legal das mulheres e crianças no Irã, é também professora de Direito na Universidade de Teerã.




Como advogada é conhecida pela sua intervenção em numerosos casos de violação de direitos humanos, em especial de mulheres e crianças. Também tem defendido dissidentes, membros de minorias religiosas e de publicações fechadas pelo governo iraniano.

Em 1997 teve um papel determinante na mobilização das mulheres para a eleição de Mohammad Khatami, para presidente. Embora tenha sido apoiante de Khatami, nunca deixou de criticar fortemente o seu governo. Mantem o respeito dos reformistas, mas é ferozmente odiada pelos conservadores que vêem nela uma séria ameaça ao sistema islâmico.


Shirin Ebadi foi a representante legal de Ezzat Ebrahim-Nejad, a única vítima mortal dos protestos estudantis de 1999. No decorrer do processo, Ebadi foi acusada de divulgar uma fita de vídeo com a confissão do autor do crime. Como conseqüência, a sua licença de advogada foi revogada durante alguns meses.


Shirin Ebadi representou a mãe de Zahra Kazemi, uma fotojornalista iraniano-canadense que morreu numa prisão no Irã.

Shirin Ebadi também ajudou à criação da lei contra o abuso físico de crianças, que foi aprovada pelo parlamento iraniano em 2002, e fundou duas organizações não-governamentais: a Sociedade para a Proteção dos Direitos das Crianças e o Centro dos Defensores dos Direitos Humanos.

Dedica a sua vida à conciliação do Islã com os Direitos Fundamentais, publicando inúmeros livros sobre essa temática. Defende o estatuto da mulher e da criança, contra uma sociedade patriarcal que ainda hoje consagra no seu Código Penal a criança como sendo "propriedade do pai ou da família paterna". Criou a "Associação de Apoio para os Direitos de Crianças" e luta pela mudança das leis de divórcio e herança no país, as quais discriminam fortemente as mulheres.


Investigou uma série de mortes de intelectuais em 1998-99 e denunciou os incidentes na universidade da capital em 1999 que provocaram várias mortes. Na barra dos tribunais, tem assumido a defesa de dissidentes e liberais perseguidos pelos conservadores. Foi presa por duas vezes.

Em 10 de outubro de 2003, o Comitê Nobel considerou-a uma "pessoa corajosa" e atribuiu-lhe o Nobel da Paz pelos seus esforços corajosos em prol da democracia e dos direitos humanos, especialmente direitos das mulheres e das crianças.

Tornava-se portanto a primeira mulher muçulmana e primeira personalidade iraniana a obter a distinção de um Prêmio Nobel.

O Comitê Nobel prestou homenagem a Shirin Ebadi por sua coragem em 2003

Shirin Ebadi estava em Paris, a caminho do aeroporto, quando recebeu a notícia da atribuição do prêmio. Interrogada pelos jornalistas quis frisar que, como ativista dos direitos humanos, "o combate pelos direitos humanos é travado em cada país pelo seu povo, e tal é o caso do Irã, e nós somos contra toda a intervenção estrangeira no Irã."

No Irã, o governo da República Islâmica reagiu com silêncio ou de forma crítica, considerando que se tratava de um ato de uma instituição pró-ocidental; o fato da Sra. Ebadi não ter usado um véu durante a cerimônia de entrega do prêmio também mereceu críticas. A agência oficial iraniana,IRNA, mencionou o evento apenas com algumas linhas, e os jornais estatais iranianos aguardaram várias horas antes de divulgar o evento.

Desde que recebeu o prêmio, Shirin Ebadi tem viajado por diversos países estrangeiros, dando conferências e recebido homenagens, publicando documentos e defendendo pessoas acusadas de crimes políticos no Irã.


Em abril de 2008, Shirin Ebadi declarou à agência Reuters que o respeito pelos Direitos Humanos no Irã tinha regredido nos últimos dois anos e aceitou defender os dirigentes Bahá'ís presos no Irã em 2008.

Nesse mesmo mês, Ebadi publicou uma declaração onde afirmava: "As ameaças contra a minha vida e segurança da minha família, que se iniciaram há algum tempo, intensificaram-se"; acrescentou que as ameaças advertiam-na a não fazer discursos no exterior e a não defender os membros da comunidade Bahá'í.

Em agosto de 2008, a agência IRNA publicou um artigo em que atacava Ebadi, insinuando sobre as suas ligações à Fé Bahá'í e acusando-a de procurar apoios no Ocidente. Uma das suas filhas, Nargess Tavassolian, também foi acusada de se converter à religião Bahá'í, um crime que no Irã é punido com a pena de morte.

Em dezembro de 2008, um grupo de manifestantes atacou a sua casa, gritando slogans e pintando insultos nas paredes; no final desse mês, a polícia iraniana fechou o escritório do Centro dos Defensores dos Direitos Humanos. Na ocasião a organização Human Rights Watch afirmou estar "extremamente preocupada" com a segurança de Shirin Ebadi.

Shirin, atualmente não mais reside no Irã e possui duas filhas. Ao se distinguir no contexto atual como uma muçulmana moderna, dá um sinal claro de esperança de emancipação às mulheres muçulmanas e, simultaneamente, de apoio a todos os reformistas iranianos.