quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

"O VENTO" - CECÍLIA MEIRELES



O cipreste inclina-se em fina reverência e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

 A grande amendoeira consente que balancem suas largas folhas transparentes ao sol. 

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis, os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes. 

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente com o mesmo tremor das samambaias debruçadas nos vasos. 

Fremem os bambus sem sossego, num insistente ritmo breve. 

O vento é o mesmo: mas sua resposta é diferente, em cada folha. 

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros. 

Como a escada e as colunas de pedra, ela pertence agora a outro reino.

 Se movimento secou também, num desenho inerte. Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa. 

O vento que percorre o jardim pode subir e descer por seus galhos inúmeros: ela não responderá mais nada, hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante. 


Cecília Meireles




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