terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Os Massacres na Nigéria e o Silêncio do Ocidente



Uma pequena célula de terroristas islâmicos atacaram cartunistas na revista satírica “Charlie Hebdo” e clientes em um supermercado de Paris, matando 17 pessoas e provocando indignação, solidariedade e apoio internacionais. A hashtag #JeSuisCharlie estava entre os tópicos mais comentados no mundo e líderes de diversos países foram às ruas para marchar em apoio à resiliência parisiense.

No norte da Nigéria, enquanto isso, um exército de extremistas islâmicos arrasou a vila de Baga, matando cerca de 2 mil pessoas, a maioria mulheres e crianças que não puderam fugir dos ataques. No final da semana, o mesmo exército – Boko Haram – introduziu uma nova arma terrível de guerra na vizinha cidade de Maiduguri. 

Eles prenderam explosivos ao corpo de uma menina de 10 anos e a enviaram ao principal mercado de aves da cidade. A menina foi parada por guardas com um detector de metais na entrada do mercado, mas a bomba foi detonada e matou pelo menos 19 pessoas. Não houve uma campanha de hashtag ou marcha globais para as vítimas destes massacres.



Em meio à comoção gerada pelos atentados terroristas em Paris, na França, um arcebispo nigeriano acusou países ocidentais de ignorarem a ameaça representada pelo grupo extremista Boko Haram.

Nenhum dos líderes mundiais que deram os braços em solidariedade às vítimas de Paris se pronunciou sobre o massacre de duas mil mortes na Nigéria – nem mesmo o presidente do país, que na ocasião estava na festa de casamento de sua filha.

Mesmo na Nigéria, nos três dias em que a história estava se desenvolvendo, a violência em Paris recebeu mais atenção da mídia do que os massacres em Baga e Maiduguri. 



O presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, condenou os ataques franceses, mas não mencionou o massacre em seu próprio país.


A cinco semanas de uma eleição presidencial, Jonathan pode estar com medo de lembrar seus eleitores de que ele esteve à frente da Nigéria em um ano em que a Boko Haram já matou pelo menos 4 mil civis.

O Arcebispo da cidade de Jos, Ignatius Kaigama, ainda pediu que a mesma atenção dada aos atentados na França seja dada aos militantes que atuam com cada vez mais violência no nordeste do país africano.

Segundo ele, o mundo precisa agir de forma mais determinada para conter o avanço do Boko Haram na Nigéria.




No último fim de semana, 23 pessoas foram mortas por três mulheres-bomba, uma das quais tinha apenas 10 anos de idade.

A reportagem é publicada por BBC Brasil, em janeiro de 2015.

Outras centenas de mortes foram registradas na semana passada, segundo relatos, durante a captura pelo Boko Haram da cidade de Baga, no Estado de Borno, no nordeste do país.

Em entrevista ao programa Newsday, da BBC, o arcebispo nigeriano disse que o massacre em Baga é a prova de que o Exército do país não consegue conter o grupo extremista.



"É uma tragédia monumental. Deixou a todos na Nigéria muito tristes. Mas parece que estamos desamparados. Porque, se fossemos capazes de deter o Boko Haram, já o teríamos feito. Eles continuam a atacar, matar e a tomar territórios impunemente", disse Kaigama.

Segundo ele, a luta contra o extremismo no país requer o mesmo apoio internacional e espírito de unidade que foi demonstrado após os ataques de militantes na França.

"Precisamos que este espírito se multiplique, não apenas quando isso ocorre na Europa, mas também na Nigéria, no Níger ou em Camarões."

Mulheres-bomba

Em janeiro de 2015, duas mulheres-bomba mataram quatro pessoas e deixaram mais de 40 feridas na cidade de Potiskum.

Um dia antes, uma menina realizou outro ataque suicida em Maiduguri, a principal cidade do nordeste do país, matando ao menos 19 pessoas.

No último mês, mais de 30 pessoas foram mortas em ataques suicidas simultâneos na cidade de Jos, que tem cristãos e islâmicos em sua população.



O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, condenou os ataques do Boko Haram, que classificou como "atos depravados".

Em junho, o Reino Unido disse que intensificaria sua ajuda ao país nas áreas militar e de educação, para conter o Boko Haram.

Essa ajuda também inclui treinamento das tropas do país, assim como vêm fazendo os Estados Unidos.

No entanto, a Nigéria criticou o governo americano por sua recusa de vender armas ao país alegando que as tropas nigerianas estavam cometendo abusos de direitos humanos.

Uma iniciativa liderada pelo governo francês pediu que Nigéria, Níger, Camarões e Chade contribuíssem com 700 soldados cada para uma força internacional contra o Boko Haram, mas nenhum país implementou o plano.




Violência chocante

O Exército nigeriano informou que está tentando retomar a cidade de Baga, que está sob o controle de militantes, mas não deu detalhes da operação.

Também disse que,  conseguiu impedir que o Boko Haram assumisse o controle de Damaturu, outra grande cidade do nordeste nigeriano.

Will Ross, correspondente da BBC News em Lagos, a principal cidade da Nigéria, diz que a violência no país não tem fim e é cada vez mais chocante, citando o uso de uma criança em um dos últimos ataques.




"As Forças Armadas nigerianas tiveram algumas vitórias, mas têm uma tarefa muito difícil, de proteger civis de homens-bomba e atiradores que estão espalhados por uma grande área no nordeste do país. Por isso, com frequência, são dominadas pelos militantes e falham em sua missão. As autoridades do país não gostam de ouvir isso, mas é verdade", afirma Ross.

"O mundo está lentamente começando a manifestar indignação com a recente violência, mas, além disso, e de uma ajuda limitada, não parece haver vontade de se envolver mais profundamente no conflito."



Desabafo de Luana Tolentino:

"A França sangra. Essa é a frase que encontrei na capa da edição de sábado do jornal. Na semana que passou 17 pessoas foram vítimas do fundamentalismo islâmico. Dentre elas, os cartunistas do Charlie Hebdo. No domingo, pela TV, tento identificar um a um os líderes políticos a frente da marcha que levou mais de 2,7 milhões de franceses às ruas.
Enquanto isso, o sangue jorra na Nigéria, país que concentra a maior população negra do mundo.  Dois mil nigerianos perderam a vida. Em meio ao massacre, muitas mulheres e crianças. Assim como os jornalistas franceses, também foram vítimas do extremismo religioso. Mas não sei quem são. Não têm nome, não têm rostos, não existem. Não estampam a primeira página dos jornais, nem merecem um nota nos programas dominicais. Não suscitam sequer uma campanha nas redes sociais.
Eles não são Charlie. Parece natural que sejam mortos. Assim como são naturais os conflitos, os massacres e a dor na África, desde que alemães, belgas, ingleses, franceses e tantos outros iniciaram o processo de exploração dos territórios africanos.
Quem sairá às ruas em solidariedade às vítimas de Baga? Quem se insurgirá contra a violência do grupo Boko Aram? Angela Merkel, François Holland, Mahmoud Abbas ou Benjamin Netanyahu? Acho que nenhum.
O Papa Francisco? Quem sabe…"







Nenhum comentário:

Postar um comentário