domingo, 30 de março de 2014

LUZES DO MUNDO - KHALIL GIBRAN





Khalil Gibran, também conhecido como Kahlil Gibran, ou simplesmente Gibran, nasceu a 6 de dezembro de 1883, em Bicharre, aldeia da região montanhosa do norte libanês, a pouca distância dos milenares cedros. A sua família vivia em precárias condições. Seu pai era um simples coletor de impostos rurais. A mãe, viúva de um casamento anterior, era igualmente humilde.

Desde criança que demonstrou uma incontrolável paixão por tempestades. Quando tinha oito anos, uma violenta tempestade abateu-se sobre a cidade onde vivia. Para desespero dos pais, o pequeno Khalil recusou-se a procurar abrigo, preferindo correr ao encontro de ventos, chuva e relâmpagos. Mais tarde, Khalil afirma que as tempestades libertam o seu coração das preocupações e sofrimentos.

Quando completa doze anos, sua mãe emigra para os Estados Unidos e o seu pai permanece no Líbano. Aparentemente, a difícil situação económica em que viviam tornou impossível a convivência entre seus pais. Sua mãe, Kamilah, decide ir para os Estados Unidos, mais concretamente para Boston, com Gibran e seus irmãos: Sultana, Mariana e Pedro, o único filho do casamento anterior. Vão morar para um pequeno gueto de sírio-libaneses, perto do Bairro Chinês de Boston, arredores da Rua Hudson. E é aqui que tem início a odisseia americana de Khalil Gibran.


Toda a família trabalha no que pode, para sobreviver. Três anos mais tarde, em 1898, Gibran é mandado de volta para o Líbano, sozinho. Em Beirute, estuda num colágio de padres maronistas. Dedica-se ao árabe, ao francês e à literatura oriental e ocidental. Demonstra raro interesse pelo estudo das religiões, o que o leva a confrontar os ensinamentos cristãos com as informações recolhidas nos livros islâmicos. Praticamente, devora a Bíblia e o Alcorão.

Em 1903, de regresso a Boston, Gibran está decidido a tentar viver das suas aptidões para a literatura e para a pintura. Colabora com jornais da comunidade sírio-libanesa nos Estados Unidos e dedica-se a aperfeiçoar o seu inglês.

Toda a sua família continua a trabalhar intensamente. Sua mãe e suas duas irmãs são costureiras, enquanto o irmão é empregado numa loja. Khalil não volta a estudar, pois está decidido a viver da sua arte. O século começa com várias tragédias fatais para a sua família.

Entre 1902 e 1903 Gibran perde a irmâ Sultana, a mãe e o meio-irmão Pedro, atingidos por doenças graves. Vive com a irmã Mariana, que sustenta ambos com o seu trabalho de costureira. A partir dessa altura, Khalil dedica-se por inteiro ao trabalho artístico.


Em 1904, realiza a sua primeira exposição de pintura e desenho num atelier em Boston.  É aí que conhece a Professora Mary Haskell, que viria a ter im papel decisivo na sua vida. Gibran tem, então, vinte e um anos e Mary torna-se na sua amiga fiel e companheira constante.

Mary ajuda Gibran a aperfeiçoar os seus conhecimentos de Inglês e dá-lhe o apoio sem o qual, jamais conseguiria realizar a maioria dos seus projetos.

Em 1908, viaja para Paris, onde Mary se oferece para lhe pagar os estudos artísticos. É assim que permanece em Paris por quase três anos,  estudando na Escola de Belas Artes e na Academia Julien. É la que cinhece Auguste Rodin. 

Uma das suas telas é escolhida para a Exposição de Belas-Artes, em 1910. A temporada parisiense é intensa e fértil. 

De regresso a Boston, vai morar algum tempo com a irmã Mariana. Porém, no outono de 1911, Gibran muda-se para Nova Iorque, onde aluga um atelier no número 51 da Rua Oeste 10, um edifício em pleno Greenwich Village. 

Gibran reúne à sua volta um grupo de escritores libaneses e sírios, formando a Academia Literária, que muito contribuiu para o renascimento das letras árabes. Apesar de toda esta efervescência, o que realmente Gibran aprecia é trabalhar e isolar-se ao máximo. 


As suas aparições em público tornam-se cada vez mais raras, pois só se sentia verdadeiramente livre quando estava só. Come pouco e trabalha muito. Evita ao máximo, compromissos sociais. Todo o seu potencial exuberante concentra-se na sua obra literária, numa carreira que iniciou em 1905 e tendo escrito quase exclusivamente em árabe.

Nesse período e até 1920, publica sete livros nessa língua: ‘A Música’, ‘As Ninfas do Vale’, ‘Espíritos Rebeldes’, ‘Asas Partidas’, ‘Uma Lágrima e um Sorriso’, ‘As Procissões’ e ‘Temporais’.

Quase todos estes livros tiveram grande impacto no mundo árabe, pois abordam temas polêmicos e introduzem significativas transformações no tratamento do idioma, apontando-lhe novas possibilidades e retirando-lhe o véu de milênios. 

Gibran é reconhecido como escritor. Rebelde na literatura e conservador nas artes plásticas, embora preserve sempre com devoção a liberdade de criação e proclame a sua fé na liberdade do artista.

Simultaneamente, torna-se um retratista de enorme prestígio. Pratica muito talentosamente a arte de reproduzir rostos, sendo requisitado com frequência para retratar notáveis personalidades da época. 

Contudo, é na criação de telas que Gibran espera atingir o que, na sua concepção, designaria por pintura mística, através de quadros que refletem sempre uma inspiração clássica. Dizia: “Quero que cada quadro seja o início de um outro quadro invisível.”

Gradualmente, Gibran deixa de escrever em árabe, passando a dedicar-se ao inglês, publicando, em 1919, o seu primeiro livro nessa língua: ‘O Louco’.

Outros se lhe seguiram: ‘O Precursor’; ‘O Profeta’; ‘Areia e Espuma’; ‘Jesus’, ‘O Filho do Homem’; ‘Os Filhos da Terra’.


Depois de sua morte ainda foram publicados mais dois livros: ‘O Errante’ e ‘O Jardim do Profeta’.

Khalil Gibran faleceu a 10 de abril de 1931, no Hospital de São Vicente. Em Nova Iorque, agonizando entre gemidos confusos, numa crise pulmonar que o deixaria totalmente inconsciente. Contava quarenta e sete anos de idade. O seu corpo foi levado para Boston, onde ficaria sepultado provisoriamente no cemitério de Forest Hills.

A 21 de agosto de 1931, os seus restos mortais são levados para Beirute, seguindo depois, numa impressionante procissão, até Bicharre. No alto da montanha, Gibran é sepultado no antigo convento escavado na rocha de Mar Sarkis, onde imaginou os seus últimos dias, a meditar.

Sobre o túmulo onde descansa, uma simples inscrição: “Aqui, entre nós, dorme Gibran”.

Khalil Gibran pregava a fé num ser humano elevado à sua mais infinita potência: “Não siga ninguém nem acredite em coisa nenhuma a não ser na sua própria imortalidade”.

O Profeta’, obra máxima de Khalil Gibran, desde o seu lançamento, em 1923, tem alcançado sucesso permanente, como poucos outros livros o têm conseguido. É um livro que atrai, não apenas pelo pensamento e pelo estilo, mas também pela filosofia de vida nele contida. Khalil prega a ternura evangélica como filtro do progresso massacrante e da impiedosa competitividade dos tempos modernos. Sem impôr ideologias, Gibran tenta despertar a bondade e a beleza escondidas na angústia e no desespero que invadem  a nossa existência.

Khalil Gibran convida-nos a vivermos as coisas boas da vida, a sermos dignos delas e a aproveitarmos o que há de mais elevado em cada um de nós.



- Prefácio -

"Vim para dizer uma palavra e devo dizê-la agora. Mas se a morte me impedir, ela será dita pelo amanhã, porque o amanhã nunca deixa segredos no livro da Eternidade. Vim para viver na glória do Amor e na luz da Beleza, que são reflexos de Deus.
Estou aqui, vivendo, e não me podem extrair o usufruto da vida porque, através da minha palavra atuante, sobreviverei mesmo após a morte. Vim aqui para ser por todos e com todos, e o que faço hoje na minha solidão ecoará amanhã entre todos os homens.
O que digo hoje com apenas meu coração será dito amanhã por milhares de corações." 
 Gibran Kahlil Gibran 




Aos milhões de admiradores do autor de "O Profeta", ficou estas flores do jardim espiritual de uma alma rica de fé e generosidade. Em meio a estas flores, estão alguns dos mais envolventes e incisivos escritos de Gibran, que datam do período do exílio de seu país, o Líbano, e da excomunhão pela sua igreja.

Muitos anos mais tarde, seria reconvocado do exílio e a Igreja lhe reabriria os braços.

Ele escreveu coisas maravilhosas, e sua literatura e arte ímpares espalharam-se, traduzidas por mais de 30 países. Gibran manteve sempre seu sublime e independente culto ao espírito e aos ditames da ética.


Para aqueles que o leem pela primeira vez, pode-se acentuar que ele combina as mais elevadas e vívidas percepções da realidade espiritual com uma poesia adornada e absolutamente individual.


Sua originalidade e poder conquistaram a admiração e até mesmo o fervor de milhões de leitores, em dezenas de línguas. Gibran também conquista quase igual reputação como pintor. Seus desenhos e pinturas eram expostos periodicamente pelas metrópoles mundiais. Quando o grande Rodin quis que lhe pintassem o retrato, Gibran, que era comparado a ele e a William Blake, foi o artista escolhido.

No mundo ocidental, esse poeta, filósofo e artista chegou a ser chamado de "o Dante do século XX". Para seus admiradores do Oriente Médio, ele é o Amado Mestre.

Uma testemunha dos funerais de Gibran, realizados em 1931, descreveu-os como tendo sido "além da imaginação". Centenas de padres e líderes religiosos, representando cada uma das grandes seitas do Oriente, ampliavam com suas presenças a emoção da solenidade. Lá estavam sacerdotes e dignitários Maronitas, Católicos, Xiitas, Protestantes, Muçulmanos, Gregos Ortodoxos, Judeus, Sunitas, Druzos e outros.

E, para completar a reintegração de Gibran no seio da Igreja, ele foi enterrado numa gruta do Mosteiro de Mar Carkis, em Bsharri, no Líbano — a diocese de sua infância.

Seu túmulo transformou-se num lugar de peregrinação. Ao lado, o Comitê Nacional de Gibran edificou um museu onde são expostos algumas das suas belas telas e os seus livros em todas as línguas. Em cima do túmulo, esta simples inscrição: "Aqui, entre nós, dorme Gibran."

Mas lá, na verdade, dorme somente seu corpo. Sua alma, difundida nos seus livros, serve de guia a milhões de leitores na mais fascinante de todas as viagens: a que leva o homem das trevas do egoísmo e da cegueira ao esplendor do dom de si e da compreensão.


Gibran diz: “O Profeta é uma obra na qual eu penso há mil anos, é para mim um segundo nascimento e meu primeiro batismo, é o único pensamento que me torna digno de me por diante do sol. Esse profeta me colocou no mundo antes que eu tivesse concebido, ele me modelou antes que eu tivesse pensado em lhe dar forma e, enfim, ele me ordenou andar mudo no seu encalço, durante sete mil léguas, antes que ele parasse para me ditar suas tendências e suas intenções.”

O profeta cujo nome é Al-Mustapha, que significa “o bem amado e o eleito”, ora, “o bem amado” (que é também uma tradução da palavra Kahlil) é um atributo dado a Abraão e, em seguida, a Jesus, enquanto que “o eleito” é um atributo de Maomé. O profeta de Gibran seria, então, o filho de todos os profetas do Oriente que o precederam?

Gibran influenciou de modo extraordinário a vida de milhões de pessoas, fazendo chegar ao mundo uma mensagem de reconciliação, de tolerância e de paz, de fraternidade, de perdão e auxílio mútuo, que devia ser a passagem da comunidade internacional para a aurora do terceiro milênio.

Em 1991, o Presidente George Bush declarou no seu discurso da inauguração do Memorial Gibran, na Avenida Massachusetts: “Este poeta escrevera um dia: "O amor é uma palavra luminosa, escrita por uma alma iluminada numa página de luz" e, de minha parte eu digo: a mão é sua e nossos corações são a página sobre a qual esta palavra luminosa foi traçada”.



- Os Filhos -
(Do Livro "O Profeta")

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."
E ele falou:
Vossos filhos não são vossos filhos.São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.Vêm através de vós, mas não de vós.E embora vivam convosco, não vos pertencem.Podeis dar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,Porque eles têm seus próprios pensamentos.Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;Pois suas almas moram na mansão do amanhã,Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.O arqueiro mira o alvo na direção do infinito e vos estica com toda a sua força Para que suas flechas se projetem rápidas e para longe.Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:Pois assim como ele ama a flecha que voa,Ama também o arco que permanece estável.

Gibran Kahlil Gibran 







Auto Retrato de Khalil Gibran







Detalhe de uma das pinturas de Khalil Gibran














































LIVRO  "O PROFETA" EM  PDF



Solilóquio (pequeno monólogo) sobre o texto "O Louco" de Khalil Gibran interpretado por Luiz Carlos Bahia.








Abaixo, o belíssimo texto "O Conhecimento de si mesmo" extraído do livro O PROFETA.
"O conhecimento de si mesmo é a mãe de todo conhecimento. Portanto estou incumbido de conhecer a mim mesmo, me conhecer completamente, conhecer minhas minúcias, minhas características, minhas sutilezas, e cada átomo meu."
(Kahlil Gibran)