sábado, 6 de setembro de 2014

NEUROTEOLOGIA



Se a origem do universo está relacionada direta ou indiretamente com uma causa divina, a briga entre astrônomos e religiosos parece não ter fim, ou talvez nossa capacidade de analisar e explicar a “poeira cósmica” tenha se aproximado cada vez mais dos relatos de "livros sagrados", dando-nos a certeza da existência de Deus ou de alguma entidade divina que tenha causado o “big bang”, tal como a tese defendida pela maioria dos astrônomos.

Ora, se nossa mente é capaz de produzir uma capacidade ilimitável de explicações causais para um mesmo fenômeno, por que não tentar explicar “científica” e “empiricamente” a existência de Deus em nossa mente ou mais precisamente, em nosso cérebro? É a isso que vários neurocientistas dos mais variados credos religiosos vem tentando explorar.

Deem o nome que quiserem àquilo que os gregos chamavam de “a sede da alma” ou simplesmente ao que os teólogos denominam de “alma”. A alma humana (preocupação de cientistas sociais) também constitui, juntamente com o cérebro, na preocupação de vários neurocientistas que buscam solucionar um dos últimos enigmas da contemporaneidade: como se dá o funcionamento do cérebro para todas as experiências misticas ou transcendentais?



Embora pouco se fale nos meios acadêmicos, alguns cientistas já estão denominando essa "ciência" que pretende comprovar que existe uma relação entre a atividade cerebral com a espiritualidade, de NEUROTEOLOGIA.

Essa atividade cerebral seria a explicação para a transcendência; trata-se de uma forma de traduzir a experiência espiritual em uma compreensão sob o aspecto neurológico. 


As experiências místicas estão presentes em nossas vidas desde os tempos mais remotos. A presença de Deus é sentida das mais diversas formas e dos mais variados relatos por pessoas em todo o mundo de diferentes religiões, tenha ele o nome que lhe for dado. 



A Neuroteologia é também conhecida por “bioteologia”, “neurociência” ou “ciência espiritual”. 

Seu objetivo é testar as correlações dos fenômenos neuronais das experiências subjetivas e da espiritualidade, explicando esses fenômenos. 

Os defensores da neuroteologia advogam por uma base neurológica e evolutiva para aquelas experiências tradicionalmente categorizadas como experiências espirituais, ou seja, são aquelas experiências de transcendência do eu, de meditação profunda, do sentimento da presença de espíritos de tradição religiosa ou até mesmo o sentimento da presença de Deus. 

O uso do termo em artigos científicos é ainda incomum, apesar do aumento de publicações e de estudos sobre os fenômenos espirituais e de experiências místicas e metafísicas.


É possível “fotografar Deus” no cérebro? 

As patologias cerebrais tais como epilepsia ou as convulsões do lobo temporal esquerdo que tanto afetam a experiência da vida e da realidade de um indivíduo, fazendo com que este perceba o fenômeno como uma experiência mística de contato com santos ou deuses pode dizer mais do que a própria existência de Deus nos mais variados sistemas de crenças religiosas que conhecemos? 


O futuro das pesquisas em neurociências poderá nos dar as respostas que tanto estamos procurando nesse admirável cérebro novo. Alguns recentes estudos com o uso de neuroimagem, pretendem localizar as regiões no cérebro ativas durante experiências, que os pacientes associam como espiritual. 




Cientistas há muito tempo têm especulado que sentimentos religiosos poderiam estar ligados a lugares específicos no cérebro. Um dos mais antigos escritos sobre o assunto datam de 1892, nos quais alguns textos sobre doenças cerebrais falavam de uma ligação entre "emoção religiosa" e epilepsia.

Em estudos na década de 1950 e de 1960 , foram tentados o uso de EEGs para estudar o comportamento das ondas cerebrais relacionado com estados espirituais. Em 1975, o neurologista Norma Geschwidn descreveu pacientes epilépticos com intensa experiência espiritual.



Durante a década de 80 o Dr. Michael Persinger estimulou o lobo temporal de pacientes humanos com um campo magnético fraco usando um equipamento que ele chamava de capacete de Deus (God helmet). 

Os indivíduos que experimentam este capacete estavam com os olhos vendados em um ambiente de zero estímulos, para não ser influenciados. Segundo Persinger, 80% dos indivíduos relataram ter tido experiências espirituais. 

Os pacientes relataram ter a sensação de "uma presença celestial no quarto". Esse trabalho ganhou atenção na época, mas não foi explicado o mecanismo que causava esses efeitos. 



Trabalhando com estes campos magnéticos, o doutor Persinger  traçou um mapa das regiões específicas do hemisfério direito do cérebro onde afirma que Deus reside. "Independentemente de nossa religião ou de nosso grau de crença (ou inclusive descrença), nosso cérebro reage de maneira quase idêntica. O capacete de Deus simplesmente acende a faísca na parte do cérebro onde nascem os pensamentos místicos e espirituais."

Em 1987, Michael Persinger publicou um livro sobre o assunto intitulado "Neuropsychological Bases of God Beliefs".

Numa tentativa de focalizar o crescente interesse no campo, em 1994, o professor Laurence O. McKinney publicou o primeiro livro com o termo Neuroteologia no título: "Neurotheology: Virtual Religion in the 21st Century" (Neuroteologia: Religião Virtual no Século XXI), escrito para uma audiência leiga. O livro ganhou grande interesse de pessoas como o Dalai Lama e o eminente teólogo Harvey Cox.

Um livro de 1998 sobre o assunto ganhou muita atenção foi "Zen and the Brain", escrito pelo Neurologista e Praticante de Zen, James H. Austin.



No final da década de 90, os neurocientistas Andrew Newberg e Eugene d’Aquili usaram varias técnicas de neuroimagem em budistas experientes em profunda meditação, e nos anos subsequentes fizeram testes um grupo de freiras franciscanas, que rezavam fervorosamente durante 45 minutos.

O resultado da pesquisa mostrou que as imagens do lobo parietal superior acusavam uma queda na atividade dessa região, que chegava a ficar bloqueada no momento mais intenso, isto é, no momento que o meditador experimenta a sensação de iluminação espiritual. 

O mais interessante é que essa área do cérebro proporciona ao homem o senso de orientação no espaço e no tempo. Isso levou os pesquisadores a concluírem que, privados de impulsos elétricos, os neurônios do lobo parietal desligariam os mecanismos das funções visuais e motoras do organismo. 

Isso levou Newberg a dizer: “O sentimento de unicidade parece paralisar os receptores sensórios da região parietal”. Exatamente por isso, o cérebro não consegue traçar fronteiras e por isso percebe o “eu” como um ente expandido, ilimitado e unido a todas as coisas. 

As imagens dos lobos temporais, na região do “cérebro emocional”, também conhecida como sistema límbico, indicam uma atividade intensa dessas áreas durante as experiências contemplativas.




“Deus pode modificar seu cérebro, não importa se você é cristão ou judeu, muçulmano ou hinduísta, agnóstico ou ateu. Se você considerá-lo por um tempo suficiente, algo surpreendente acontece e o seu funcionamento neurológico começa a se modificar. Para nós, neurocientistas, esta pode ser uma das mais fascinantes experiências humanas a se explorar”, afirma Newberg.

Para ele, o mais desenvolvido órgão humano é especialmente calibrado para a experiência espiritual.

Analisando imagens captadas por tomógrafos, Newberg pesquisa como a oração e a meditação se manifestam no cérebro. Ele diz que a neurociência pode elucidar experiências místicas e acredita que o conceito de Deus é fundamental para a sobrevivência da espécie humana.


David Wulf, um psicólogo da Wheaton Universidade de Massachusetts, disse que o "estudo de imagens do cérebro com os novos e poderosos aparelhos de neuroimagem como o MRIscanner (imagem), junto com a consistência do histórico de experiências espirituais por várias culturas, pela história e por religiões, sugerem um ponto em comum , e que isso reflete a estrutura e processos no cérebro humano. 

Ecoando antigas teorias de que sentimentos associados com experiências místicas ou religiosas são aspectos normais do funcionamento do cérebro sob circunstâncias extremas, e não comunicação direta com Deus ou outras entidades."



Alguns cientistas dizem que a Neuroteologia pode reconciliar religião e ciência, mas, se não conseguir, a Neuroteologia pode desenvolver métodos seguros e precisos de indução a experiências espirituais para pessoas que não conseguem tê-las facilmente. 

Por causa dos efeitos positivos que essas experiências causam em pessoas que já a tiveram, alguns cientistas especulam que a habilidade de induzi-las artificialmente pode transformar a vida de algumas pessoas, tornando-as mais felizes, saudáveis e com melhor concentração.

Quais seriam as bases neurais da experiência espiritual?



Segundo Vilayanur Ramachandran, neurologista indiano e diretor de pesquisa neurocognitivas da Universidade da Califórnia em San Diego, o lombo temporal é centro da experiência mística. Denominado por ele como: “módulo de Deus”. 

Isso significa que cada zona do cérebro desempenha uma função específica. Assim, nas palavras de Ramachandran "Tentei somente entender se a experiência religiosa de fato se origina no cérebro e onde isso ocorre exatamente. O chamado módulo de Deus não é antena de recepção para mensagem do além". 


Áreas de estudo da Neuroteologia:




O MRIscanner é um instrumento que ajuda a estudar o cérebro em funcionamento. E um instrumento de grande ajuda para a Neuroteologia.

Existem varias áreas de estudo dentro da neuroteologia. Algumas delas sao:

Estudo sobre como o cérebro humano pode ter evoluído para produzir experiências (Neuroteologia evolutiva)

Estudo do desenvolvimento espiritual , do sentido de Deus e do Sagrado , e de experiências religiosas em crianças. Do nascimento ate a infância (Neuroteologia desenvovimental)

Estudo do comportamento espiritual e religioso da raça humana por toda a história, e de ancestrais de humanos como o Homo habilis e o Homo erectus, e espécies próximas como o Homo de Neanderthal (Neuroteoantropologia)



A Neuroteologia tenta explicar a atual base neurológica para aquelas experiências, que são popularmente chamadas de espirituais, religiosas, ou místicas (e outros termos) para formas anormais de cognição, que quase sempre envolvem um ou mais dos seguintes itens:


A gravura de Flammarion é usada frequentemente para ilustrar a experiência espiritual.

Exercícios de respiração como o Pranayama podem causar experiências espirituais.


Noético : o indivíduo sente que ele aprendeu alguma coisa de valor da experiência;

Inexistência do espaço e tempo : a experiência causa a sensação de que não existe mais tempo e espaço;

Sagrado : a experiência cria a sensação de que tudo é sagrado e divino;

União : sentimento de união com tudo no universo, união com Deus ou alguma força maior que o indivíduo.


Os cientistas estão desenvolvendo uma elaborada pesquisa que busca estudar esta relação entre Deus e o cérebro. Através da “Neuroteologia”, eles estão observando como a prática da oração e meditação influencia a atividade cerebral humana e como isso estaria ligado ao transcendente, a uma dimensão espiritual. 

Maria Beatrice Toro, uma das pesquisadoras, diz que “os novos estudos, publicados no International Journal of the Psychology of Religion, mostram que a situação neurológica correspondente à experiência espiritual é mais complexa do que haviam pensado os primeiros estudos de Newberg e de D’Aquili: Mais de uma área distinta, segundo os cientistas da Universidade Missouri, se trataria de múltiplas áreas que se ativam segundo um esquema peculiar”. 




A cientista explica que “a espiritualidade, com base nesses estudos, aparece como algo dinâmico que utiliza diversas partes do cérebro para poder ser experimentada”. Eles têm observado a atividade de alguns componentes do cérebro como o lóbulo parietal direito, o lóbulo frontal, etc., e como esses elementos se comportam mediante experiências espirituais. 

O lóbulo parietal direito cuida de áreas cerebrais dedicadas à orientação no espaço e no tempo, dois elementos que, na experiência da meditação profunda e da oração, desaparecem.


As técnicas de meditação, focalizadas na respiração, na oração, na concentração sobre um ponto, abrem a mente para experiências qualitativamente diferentes, de atenção a "algo maior". 




"Gene Divino"





A hipótese do gene divino propõe que alguns seres humanos carregam um gene que lhes dão a predisposição para episódios interpretados por algumas pessoas como revelação religiosa. A idéia foi postulada e promovida pelo geneticista Dr. Dean Hamer, diretor da Unidade Estrutura do gene e regulação, no Instituto nacional do câncer nos Estados Unidos . 

Hamer escreveu um livro sobre o assunto intitulado, O Gene de Deus : Como a fé é pré-programada dentro dos nossos genes . (The God Gene: How Faith is Hardwired into our Genes)

De acordo com a hipótese, o gene divino (VMAT2), não é “codificado” para a crença em Deus, mas é arranjado fisiologicamente para produzir sensações associadas, por alguns, com a presença de Deus ou outras experiências místicas, ou mais especificamente espiritualidade como um estado da mente.




"Todos nascemos com esse gene e temos a predisposição à espiritualidade. Mas exercemos essa capacidade, ou não." - Dean Hamer

Dr. Hames teorizou que a transcendência faz as pessoas ficarem mais otimistas, o que leva elas a ficarem mais saudáveis e com mais probabilidade de terem muitos filhos.

Que vantagens evolutivas isso pode levar, e de que esses efeitos vantajosos são efeitos colaterais , são questões que ainda estão para serem totalmente exploradas. 

Assim como vimos estarrecidos alguns dos sonhos espaciais transformarem-se em realidade, é bem possível que estejamos neste exato momento sendo expectadores e testemunhas de uma nova aurora da ciência médica e neurológica: a neuroteologia. 

A "neuroteologia" nos mostra que existe uma função ou um uso global do cérebro que gera um sentido de conexão com o transcendente. 

É interessante notar como a teologia clássica fala de "sentidos espirituais", que, graças a essas pesquisas, encontram agora uma confirmação neurológica, nos mostrando como é possível que se chegue a dimensões cognoscitivas peculiares da pessoa religiosa. 
Isso explicaria o "como". Responder o "por que" é outro assunto. 





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