quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A NAVALHA DE OCCAM



É provável que você já tenha ouvido isso antes: "A explicação mais simples geralmente é a certa". Os detetives usam esse princípio para deduzir quem é o suspeito mais provável em um assassinato – e você sabe, o mordomo sempre é o culpado. Os médicos o usam para determinar a doença por trás de uma série de sintomas.


Essa linha de pensamento é chamada navalha de Occam. Sua autoria foi atribuída a William de Ockham, um frade franciscano inglês. Ela é usada de várias formas ao redor do mundo, como um meio de retalhar um problema ou uma situação e eliminar elementos desnecessários. 


“Se em tudo o mais forem idênticas às várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor”
– William de Ockham


William viveu como um filósofo e monge franciscano, um homem devoto que levava muito a sério seu voto de pobreza, ou seja, ele vivia com apenas o absolutamente necessário. 

Você pode pensar que foi o voto de pobreza, uma forma de simplicidade, que fez que William tivesse sua grande ideia. Na verdade, o fundamento da navalha de Occam já era uma linha de pensamento medieval consagrada na época de William. 

William capturou a essência do princípio e juntou tudo de uma maneira que podia ser facilmente compreendida (pelo menos por qualquer um que soubesse latim). Com a criação de algumas frases simples, ele conseguiu sintetizar um mundo de lógica medieval, garantindo sua passagem segura para os tempos modernos. 


A Navalha de Occam defende a intuição como ponto de partida para o conhecimento do universo. William de Ockham defende o princípio de que a natureza é por si mesma econômica, optando invariavelmente pelo caminho mais simples. 

Ockham defendia que o homem, nas suas teorias, deveria sempre eliminar conceitos supérfluos. Este princípio ficou conhecido como "navalha de Occam" a partir do século XIX, através dos trabalhos de Sir William Hamilton.


O que chamamos de navalha, porém, é um pouco diferente do que seu autor escreveu a princípio. Existem duas partes que são consideradas os fundamentos da navalha de Occam e elas foram escritas originalmente em latim:

  • O Princípio da Pluralidade - A pluralidade não deve ser determinada sem necessidade.


  • O Princípio da Parcimônia - Não há por que fazer com mais, o que pode ser feito com menos.


Juntas, elas representam os fundamentos da investigação do universo pela humanidade, e a maneira como vemos nosso ambiente está baseada amplamente na navalha de Occam. 

O que é conhecido como navalha de Occam era um principio comum na filosofia medieval e não foi originado por William de Ockham,  mas devido ao seu  frequente uso do principio, seu nome ficou indelevelmente ligado a ele. 

É pouco provável que William apreciasse o que alguns de nós fizemos com o seu nome. Por exemplo, ateistas muitas vezes aplicam a navalha de Occam argumentando contra a existência de Deus na base de que Deus é uma hipótese desnecessária. Podemos explicar tudo sem assumir o peso metafisico extra de um Ser Divino.


O uso por William do principio da pluralidade desnecessária ocorre em debates sobre o equivalente medieval do psi.  Este principio tem sido usado por ateistas para rejeitar a hipótese de um Deus-Criador a favor da evolução natural: se um Deus Perfeito tivesse criado o Universo, quer o Universo, quer as suas partes seriam mais simples. William não teria apreciado tal conjectura. 

De acordo com William de Ockham, a ideia de Deus não é estabelecida por evidências experimentais ou de raciocínio. Tudo o que sabemos de Deus é-nos dado por revelação. Os fundamentos de toda a teologia é, portanto a fé. O que Ockham dizia, e que a maioria das pessoas eventualmente aceitava, é que a ciência e a teologia têm objetos diferentes e requerem métodos diferentes.



A navalha de Occam é tambem chamada o principio da parcimônia. Hoje em dia é interpretada como "a explicação mais simples é a melhor" ou "não multiplique hipóteses desnecessariamente." 

Em qualquer caso, a navalha de Occam é o principio que é frequentemente usado por filósofos num esforço de estabelecer critérios para escolher entre várias teorias com igual valor explicatório. 

O princípio afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias à explicação do mesmo e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predições da hipótese ou teoria.

"Quando dando razões explicativas para algo, não postule mais que o necessário".  O princípio recomenda assim que se escolha a teoria explicativa que implique o menor número de premissas assumidas e o menor número de entidades.


Uma das principais coisas que a navalha de Occam revela é a subjetividade com a qual vemos o universo. 


Embora William não tenha criado o princípio da parcimônia, isso certamente influenciou a maneira como ele encarava a vida. William não só vivia sob seu minimalista voto de pobreza, como também costumava escrever sobre o assunto. 


A navalha de Occam é baseada na ideia de que a simplicidade é igual à perfeição. Isso se encaixa perfeitamente no método científico, a série de passos que os cientistas seguem para provar ou reprovar alguma coisa. 

Ockham usou a navalha para liquidar com os universais da teoria do realismo, insistindo que uma explanação válida tem que ser baseada em fatos simples e observáveis, suplementada por pura lógica. Em outros termos a Navalha de Ockham diz que entre duas teorias que explicam o mesmo fenômeno devemos escolher sempre a mais simples. No caso de Ockham a explicação mais simples é a mostrada pela experiência.

Aceitar essas condições significa que não seremos capazes de provar cientificamente a existência de Deus ou Sua bondade, ou quaisquer outros dogmas da fé. Tal conclusão não o perturbou, de modo algum: ele achava que teologia era uma coisa (matéria de revelação) e ciência, outra (matéria de descoberta). 


A navalha de Occam ganhou ampla aceitação e como resultado, o princípio vem sendo ampliado (ou distorcido, dependendo de sua opinião) ao longo do tempo. 


Os céticos usam a navalha de Occam como uma ferramenta fundamental e, algumas vezes, como a própria evidência. Os céticos são pessoas que tendem a acreditar apenas no que podem sentir ou no que pode ser provado cientificamente. 

Existem, no entanto, algumas pessoas que, como os cientistas e os céticos, usam a navalha como se ela fosse uma grande espada. Para essas pessoas, ela prova uma teoria e invalida a outra. 


É importante lembrar que a ideia atribuída a Aristóteles, que diz que a perfeição é encontrada na simplicidade, foi criada pelo ser humano. Ela não é confirmada pela matemática, física ou química. E, ainda assim, alguns a consideram comprovada.



O problema de todos os argumentos é que o que constitui a simplicidade é subjetivo. Além disso, não conseguimos mostrar de maneira racional que o universo poderia ser mais simples. Embora possamos apontar excessos em níveis que conseguimos observar, não podemos identificar com certeza se eles não são necessários de modo geral. 

A fotossíntese, por exemplo, é um mecanismo bastante complexo. Isso não quer dizer, no entanto, que ela não seja o meio mais simples possível de obter a produção de alimento em uma planta. Ainda temos de criar um processo mais simples, que irá obter um resultado igual no mesmo sistema.


Alguns pensadores religiosos não acreditam que a navalha tenha uma finalidade. A religião é baseada na fé e não em evidências. As complexidades de um mundo baseado em um Deus criador desafiam a navalha de Occam. Afinal, a ideia é basicamente irracional. Além do mais, não temos evidências empíricas da existência de Deus. Os pensadores religiosos, contudo, ressaltam que as evidências da existência de Deus estão ao nosso redor, na forma de árvores, da atmosfera e de seres humanos.

Contudo, para Ockham a fé não pode fazer conhecer de maneira clara e inequívoca as suas verdades. A fé não pode apresentar argumentos que possam ser demonstrados. A verdade manifesta por Deus não pertence ao mundo racional. A razão também não pode proporcionar assistência e apoio para a fé, pois para as coisas divinas a razão é ineficaz. Somente a fé consegue esclarecer assuntos da revelação divina


Ockham sempre argumentou que a teologia natural é impossível. Teologia natural usa a razão para compreender Deus, em contraste com a teologia revelada, que se baseia nas revelações das escrituras.


Walter Chatton, contemporâneo de Ockham, afirmava que “se três entes não forem suficientes para verificar uma afirmação acerca de algo, então uma quarta deve ser acrescentada, e assim por diante”.

Leibniz , Kant , Karl Menger  também discordaram da navalha de Occam.

Leibniz afirmou que “a variedade de seres não pode ser diminuída”.

Menger formulou a lei contra a avareza, segundo a qual “as entidades não podem ser reduzidas até ao ponto da inadequação”, e “é inútil fazer com pouco o que requer mais”…

Obviamente nenhuma destas afirmações contraria realmente o sentido da Navalha de Occam, mas servem antes como alerta contra o excesso de zelo na aplicação do princípio. Deve-se eliminar o supérfluo, mas apenas isso.



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