domingo, 27 de julho de 2014

LUZES DO MUNDO - ARIANO SUASSUNA


Esta não é uma postagem falando sobre vida e obra do mestre Ariano Suassuna. 

Genial, provocador, divertido, teimoso. Mas, antes de tudo, autêntico. Das frases polêmicas às posturas consideradas radicais, Ariano Suassuna foi uma pessoa além de sua fantástica obra. Era uma espécie de Dom Quixote brasileiro. 

Portanto, Ariano não se conhece através de sua biografia, Ariano é para ser saboreado através de suas palavras. 

Suas obras são marcadas pela influência das suas raízes sertanejas e pela defesa das manifestações culturais populares.





Nasci na Paraíba.  Nos meus primeiros anos de vida vivi no Sítio Acauã, no Sertão do estado.
Aos 3 anos de idade eu tive meu pai assassinado e isso me marcou pelo resto da vida. E outras perdas familiares, eu sempre fui muito ligado à família. 

Éramos nove irmãos e hoje somos quatro, ou seja, eu perdi cinco irmãos e de homem só resto eu. Como presentes, também ganhei a família. Tive uma família maravilhosa, inclusive, meu pai exerceu uma grande influência, apesar de ter convivido tão pouco. 

Primeiro, porque ele era um grande leitor e herdei dele uma biblioteca que não era comum no Sertão da Paraíba, se ainda hoje não é comum, imagina nos anos 1930. Herdei uma biblioteca extraordinária.

Depois, essa personalidade que Deus me deu que me faz interessar muito pelo ser humano. O meu primeiro impulso, quando não conheço a pessoa, é gostar da pessoa. Acho a vida um espetáculo maravilhoso, tem momentos muito duros, mas a convivência com o ser humano é muito enriquecedora, muito boa. 

E, depois, qualquer que seja a dimensão dele, o talento que Deus me deu para transformar as coisas em história, seja no teatro ou na literatura.



A última vez que vi meu pai foi no cais do Recife. A gente veio trazer meu pai , para ele ir ao Rio – onde foi assassinado. Só me lembro desse momento: ele já no navio, mamãe me apontando. Eu não via. De repente, enxerguei: meu pai estava emoldurado pela janela do navio – dando com a mão. Aquela foi a última vez que o vi.


"Quando ao som da viola e do bordão, Cantava com voz rouca, o Desatino, O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.
Mas mataram meu pai. Desde esse dia Eu me vi, como cego sem meu guia. 
Que se foi para o Sol, transfigurado.
Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa Espada de Ouro em pasto ensanguentado."


Minha mãe tinha medo de que a gente tivesse algum sentimento de vingança. O ambiente no sertão levava muito a isso. Perguntavam-me : "Como é ? Quando crescer, vai vingar o pai ?"

Ouvi isso várias vezes. Mamãe, com medo, não só retirou a gente do sertão da Paraíba, como nos convenceu de que o assassino do meu pai tinha morrido. 

Só quando adulto, já casado e pai de filho, é que vim a saber que o executor da morte estava vivo – morando no Rio de Janeiro.

Perguntei a ela: “Minha mãe, por que você não me disse ? “. E ela: “Não disse para vocês não ficarem com essa ideia de vingança”. 

Uma das lembranças que tenho da infância é um morador da fazenda, grande amigo de papai, ajoelhado aos pés da minha mãe pedindo para ela deixar que ele matasse o assassino. Mamãe não deixou.



Meu pai sabia que ia ser assassinado: escreveu uma carta, para minha mãe e para nós, no dia oito de outubro de 1930 – e foi assassinado no outro dia, de manhã. Dizia que esperava ser assassinado. Pedia que ninguém vingasse. Disse:  não se tornem assassinos por minha causa !

Se você já viu uma última confissão, você reconhece o tom. E ele dizia: podem assegurar a nossos filhos que sou inteiramente inocente no caso de morte de João Pessoa” 

( a carta dizia: “Se me tirarem a vida os parentes do presidente João Pessoa, saibam todos os nossos que foi clamorosa injustiça. Não sou responsável pela sua morte nem de pessoa alguma neste mundo. Não alimentem, apesar disso, ideia ou sentimento de vingança contra ninguém. Recorram para Deus. Para Deus, somente.Não se façam criminosos por minha causa“).



Assisti ao primeiro cantador quando ainda era menino lá na minha terra, em Taperoá, sertão da Paraíba. E naquele dia participava um grande cantador, chamado Antonio Marinho, que, além dos improvisos, cantou um folheto, escrito por ele, que me causou grande impressão. Depois, me lembro de um dia na biblioteca de meu pai. Ele era um grande leitor, sabia versos de cor e era amigo de um escritor cearense chamado Leonardo Motta, que foi um dos pioneiros da documentação sobre os poetas populares. 

Foi aí que comecei a ver que aqueles cantadores, que eu tinha ouvido com tanta alegria, eram assunto de livros, que o que eles faziam eram coisas importantes. Ficou sacralizado pra mim o cantador. 

Não é por acaso, talvez, que quando fui escrever O Auto da Compadecida me baseei em três folhetos. Estão todos os três citados no livro de Leonardo Motta. Foi O Enterro do Cachorro, de Leão de Gomes de Barros, O Cavalo que Defecava Dinheiro, que também acho que é dele, e o Castigo da Soberba, que é dado como de autoria de dois autores folclóricos, Anselmo Vieira de Souza e Silvinho de Pirauá. Eu me baseei nesses três folhetos para fazer o Auto da Compadecida.

Eu era um bom estudante, tirava boas notas, gostava muito de ler e minha mãe comprou para mim a obra completa de Monteiro Lobato. Passei então a achar graça de um bicho de suas histórias, a mula sem cabeça, que solta fogo pelas ventas.


A primeira vez que fui a São Paulo foi em 1948. Eu tinha 20 anos. Estava numa livraria, quando vejo do outro lado Monteiro Lobato! Devo ter feito uma cara de tal espanto, que ele próprio veio até mim e disse: “Boa tarde”. E não me ocorreu coisa nenhuma se não responder: “Boa tarde!” Em julho daquele ano, ele morreu. E eu perdi a oportunidade de falar com meu ídolo.


Homenagem a Ariano Suassuna





Eu recebi uma comenda portuguesa, A Ordem do Infante do Henrique, que me foi dada pelo ex-presidente Mário Soares e, quando a comenda me foi entregue no Recife, eu tinha lido o artigo de Gandhi e ele dizia que o indiano pertencente às classes poderosas, mas que amasse o seu país e o seu povo, não devia nunca vestir roupa feita pelos ingleses, pois seria cúmplice dos invasores e estaria tirando das mulheres pobres da Índia um dos poucos mercados de trabalho que elas tinham, que era a costura. 



Desde esse momento, decidi que não usaria mais paletó e gravata e que só vestiria roupa feita por uma costureira popular. Zélia, minha mulher, me apresentou a uma costureira extraordinária chamada Edite Minervina de Lima. 



Queria um tipo de roupa que fosse a média de trabalho de um brasileiro comum. Passei a usar mescla azul, caqui e branco. Aí eu fui eleito para a Academia Pernambucana de Letras, não queria chocar todo mundo e chamei Edite e disse: “Você faça uma roupa daquele jeito mesmo, mas preto com camisa branca. Ela fez e eu fui e não choquei ninguém e deu para tomar posse.” 

Eu tenho um certo dom de improviso e ele nunca me faltou. Uma vez, um colega me provocou por causa disso e eu recorri a uma estrofe de um cantador de repentes que eu conhecia para dar a resposta. Ela diz assim: "Para brigar de tiro e faca/ não sirvo/ não presto não./ Mas solto assim sobre um palco/com um microfone na mão./ Eu sou onça matadeira/ sou tigre bravo e leão". Ele ficou com tanto medo de mim que se encolheu todo.



Eu sou escritor. O escritor convencido, além de antipático, é um indecente. O artista verdadeiro, o escritor verdadeiro, procura o êxito e não o sucesso, mas se juntar as duas coisas, é ótimo.

Eu acho que só depois da morte é que se pode avaliar o trabalho de alguém, por isso um escritor que se envaidece do seu trabalho ele é, além de chato, imbecil, porque ninguém pode saber o valor do que ele escreve enquanto ele estiver vivo. 


Eu procuro separar, porque não gosto da chamada arte engajada. Não gosto de colocar meu trabalho a serviço das minhas ideias. Acho que as ideias de um escritor podem e até devem aparecer no que ele escreve, mas ele não deve colocar a sua obra a serviço dessas ideias. 

Gosto muito quando aparecem as ideias no romance, mas ele não pode colocar o romance a serviço. Procuro separar. A minha militância em defesa da cultura brasileira acho que é a própria obra que deve sustentar. 

Gostaria de fazer do meu romance, antes de tudo, uma obra literária. Os mestres tinham essa tendência. Tenho vários mestres, inclusive na literatura brasileira, dos quais destacaria Euclides da Cunha e Lima Barreto. Gostaria muito que meu romance fosse uma continuação de Os sertões e de O triste fim de Policarpo Quaresma, que acho uma maravilha.

Eu tenho percorrido o Brasil e o que mais me entusiasma é a unidade que se mantém, apesar das diferenças. As duas vertentes mais importantes da cultura brasileira são a barroca, que herdamos dos portugueses, e a popular. É isso que faz a unidade do Brasil. Eu, hoje, com franqueza, não me sinto somente um nordestino. Eu me sinto hoje um brasileiro.



Acredito que toda arte é local, antes de ser regional, mas, se prestar, será contemporânea e universal. A arte, por natureza, não é uma imitação do real, é uma recriação. É uma realidade magnificada.



Prefiro escrever de manhã. De noite, não gosto porque perco o sono, minha cabeça continua trabalhando pensando nos problemas do romance e perco o sono, coisa que tenho horror. Mesmo quando viajo fico pensando sobre o romance. Ele não me abandona nunca, tomo notas porque senão posso esquecer. Para escrever, preciso do silêncio. 


Converso muito com Deus, todos os dias. E entra muito assunto, muitos pedidos. Vergonhosamente, acho que tem mais pedido que agradecimento. Quando acho que estou incomodando muito, recorro a medianeira de todas as graças, que me acompanha a todo momento e para todo o lugar que vou, levo (segura a medalha de Nossa Senhora).



O encontro com a minha mulher, foi um acontecimento muito especial. Eu guardo as datas mais importantes ligadas a ela. A primeira frase que eu disse à Zélia foi uma frase corriqueira, mas, pelo fato de ter sido dirigida para ela, eu dei importância literária e poética, colocando-a em um romance. 

Em 1956, escrevi ‘A História do Amor de Fernando e Isaura’, baseado na história de ‘Tristão e Isolda’, porque eu queria pegar uma história de amor desafortunada. O romance é a versão brasileira de ‘Tristão e Isolda’. 



A primeira frase que Fernando diz a Isaura é a primeira frase que eu disse a Zélia. Eu conheci Zélia andando na rua. Cheguei em casa dizendo que tinha visto uma moça muito bonita e que ela tinha me dado importância. Minha irmã não acreditou, dizendo uma moça bonita não ia me dar importância. Alguns dias depois, ela confirmou que era verdade: - Para minha surpresa, o que você me disse é verdade, porque a moça que você viu é irmã de uma colega de trabalho minha – e ela me confirmou. 


Então eu já sabia que Zélia me conhecia. Por isso, a primeira vez que vi Zélia na rua eu disse à ela: Você se importa de me conhecer sem ter ninguém para nos apresentar? Ela disse que não se incomodava. 

Alguns dias depois, ela me convidou para ir a uma festa. Esta festa foi no dia 20 de agosto de 1947 e foi aí que comecei a namorar com ela. Dia 6 de janeiro de 1948, dia de reis, eu pedi Zélia em casamento e ela concordou. A partir daí, eu passei a escolher as datas e a celebrar. Eu comecei a escrever a ‘Pedra do Reino’ no dia do aniversário da Zélia, porque eu queria que ela trouxesse a sua benéfica influência.

Com Zélia, tive uma história de 57 anos de intensa cumplicidade. Graças a minha amada,  mudei o jeito de escrever. Só escrevia tragédias. O encontro com Zélia parece que desatou o nó que havia dentro de mim.






Chicó e João Grilo representam o povo brasileiro. E o povo não tem vez. Quem tem vez somos nós os privilegiados. 

Esse abismo que existe entre privilegiados e ‘despossuídos’ no Brasil tem que acabar. O povo é mais sábio do que se pensa normalmente. E às vezes até se finge de menos sábio do que realmente é por uma estratégia de sobrevivência, O que quero dizer é que subestimar o povo é um erro, porque ele é mais sábio do que aparenta. A começar pelo fato de saber sobreviver na desigualdade brasileira...

É muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos.

O Brasil tem uma unidade em sua diversidade. A gente respeita a cultura gaúcha, nordestina, amazônica. O que é ruim é este achatamento cosmopolita. Você liga a televisão e não consegue distinguir se um cantor é alemão, brasileiro ou americano, porque todos cantam e se vestem do mesmo jeito.



Já me disseram que eu quero colocar a cultura brasileira dentro de uma redoma de vidro pra que ela não se contamine, e isso é bobagem. Sou a favor da diversidade cultural brasileira. Só não admito é a influência de uma arte americana de segunda classe.
A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.


Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa.

Vídeo hilário "A Conversão"




Ariano Suassuna analisa a banda Calipso




Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo. 

É claro que, objetivamente, eu sei que vou morrer. Não sei se você já notou, mas nenhum de nós acredita que morre, o que é uma bênção. 

A gente se porta a vida toda como se nunca fosse morrer, o que é muito bom. Porque se a gente for pensar na morte como uma coisa fundamental, inevitável e próxima, a gente vai perder o gosto de viver, vai perder o gosto de tudo. Eu digo isso procurando verbalizar uma inclinação que acho que é de todo mundo. A gente tem uma tendência a acreditar que não morre.

[Pensar que vai morrer] prejudica um pouco a qualidade de vida, e eu sou um apaixonado pela vida, amo profundamente a vida. Olhe que essa maldita tem me maltratado, mas eu gosto dela.

Eu não fui, como todos nós, eu não fui consultado antes de nascer, se eu queria ou não. Mas se a consulta me fosse feita hoje, eu queria nascer 100 vezes.



Eu não gosto de contar valentia antecipada, acho que a gente só pode dizer que não tem medo de alguma coisa depois de enfrentá-la. 

Agora, até onde eu vejo, eu não tenho medo da morte. Eu tenho pena de morrer sem ter realizado certas coisas. Por exemplo: se visse que não dava para terminar o romance que escrevo, aí teria muito pena de morrer.

Não tenho medo da morte. Na minha terra, a morte é uma mulher e se chama Caetana. E o único jeito de aceitar essa maldita é pensando que ela é uma mulher linda.




Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo.


"Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados".


 A grande fonte de sofrimento de minha vida é o fato de constatar que ela contradiz aquilo em que mais profundamente acredito, o remorso de saber que, por covardia e também por medo de ferir aqueles a quem amo, toda a minha vida é uma traição a Deus – ao Deserto e à pobreza que constitui meu sonho secreto.











"Carta para Ariano,
Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém,  homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo. 
Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Sheakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.
O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.
Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cercas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro. 
Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro. 
Teu,Matheus Nachtergaele"














Os causos de Ariano Suassuna



Ariano Suassuna no Programa do Jô - Completo - Parte 1


Ariano Suassuna no Programa do Jô - Completo - Parte 2



Ariano Suassuna no Programa do Jô - Completo - Parte 3



"Lápide" - por Ariano Suassuna



Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo 
nas pedras do meu Pasto incendiado: 
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado, 
com a Espora de ouro, até matá-lo.
Um dos meus filhos deve cavalgá-lo 
numa Sela de couro esverdeado, 
que arraste pelo Chão pedroso e pardo 
chapas de Cobre, sinos e badalos.
Assim, com o Raio e o cobre percutido, 
tropel de cascos, sangue do Castanho, 
talvez se finja o som de Ouro fundido
que, em vão – Sangue insensato e vagabundo — 
tentei forjar, no meu Cantar estranho, 
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

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