segunda-feira, 30 de setembro de 2013

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO



Os Ombros Suportam o Mundo


Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. 

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor. 

Porque o amor resultou inútil. 

E os olhos não choram.  

E as mãos tecem apenas o rude trabalho. 

E o coração está seco. 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.


Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. 

És todo certeza, já não sabes sofrer. 

E nada esperas de teus amigos. 



Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? 

Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.  



As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. 

Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer.


Chegou um tempo em que não adianta morrer. 

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. 

A vida apenas, sem mistificação.



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