domingo, 1 de setembro de 2013

LUZES DO MUNDO - RUMI



RUMI - O POETA DE OUTRAS ESFERAS 



Mevlana      Jalaluddim     Rumi     nasceu    em   Balk, antiga   Pérsia   e  atual   Afeganistão,     em setembro de   1207.   Seu   pai,   Bahauddin   Walad,   foi   um   dos   maiores   eruditos   de   seu tempo, conhecido como Sultan Ulema, o Sultão dos Sábios e teve influência decisiva na formação de Rumi. 
Na iminência da invasão mongol, Bahauddim migrou ao longo de alguns anos com sua família. 
Durante essa peregrinação, Rumi - em sua infância e adolescência - presenciou o encontro de seu pai com grandes mestres do Sufismo, como Faraddudim Attar. Havia uma disputa entre os sultões e califas pela presença de seu Pai. Todos queriam construir Madrassas   (escolas)   para   acomodar   Bahauddin   e   sua   família,   e   manter   em suas   cidades   esta grande   eminência.   
Mas  foi   em   Konia,   na   antiga   Anatólia   e   atual Turquia, que Bahauddim e sua família se estabeleceram. 
Rumi passou por uma formação clássica que abrangia todas as áreas de conhecimento Islâmico. 
Ele estudou Gramática, Jurisprudência, Comentário Corânico, as tradições do Profeta,  Teologia,  Filosofia, Matemática,  Astronomia,  e  foi   introduzido  ao conhecimento e prática do caminho Sufi. 
Foi enviado por seu pai às melhores escolas e logo, passou a ser reconhecido pela profundidade e brilhantismo de sua compreensão.
Com a  morte    de   seu   pai,  Rumi  assumiu     a sua  madrassa      aos   24   anos.   Ele   era reverenciado por todos seus discípulos, e a população em Konia o chamava de Mevlana(nosso mestre).



Após   a   morte   de   Bahauddim,   seu   antigo discípulo   Burhaneddin,   veio   a   Konia   para completar o treinamento de Rumi. E durante muitos anos, mesmo mantendo a madrassa e   seu   papel na comunidade,      Rumi     devotou-se     a Burhaneddin e  já  demonstrava    o desenvolvimento do elemento que iria tornar-se central em sua vida, a compreensão do papel   do Mestre,   Amigo   e   companheiro   de   Jornada como reflexo   da   Perfeição   e   do Amor Divino.

Após a morte de Burhaneddin, sentindo-se maduro, Mevlana (Runi) assume integralmente seu papel   na madrassa   como   Mestre,   e   sua   fama   e  renome espalham-se   para   além   das fronteiras de Konia.

E então surge Shamsuddim Tabriz, o homem que iria transformar Mevalana Jalaluddin Rumi   no   mestre que   renovou   o   caminho   místico   e   influenciou outros   professores   e escolas além das fronteiras do Sufismo ou do Islã. 

Shams continua sendo uma figura enigmática,   a quem   muitos   atribuem   diversas  origens   e   lendas.   
Alguns   o   associam   à tradição Ismaelita e sua forte influência Persa, outros aos Malamati, grupo Sufi que foi chamado de Povo da Culpa. Mas isto é apenas conjectura, pois naquela  época, o Sufismo ainda apresentava muita vivacidade      e  liberdade   e ainda não   havia    sido  formatado     em   escolas,  ordens ou linhagens,   fenômeno   que   demorou   um século para  acontecer.   
Os   mestres   e   dervixes peregrinavam   pelas cidades   mesclando   conhecimentos   e   interagindo de   forma   mais livre.   As  Madrassas      e  outras instalações    serviam-lhes     de  acomodação, mesmo     se fossem dirigidas por outros mestres. 
Por causa dessa mescla tornou-se possível o resgate das tradições antigas e o florescimento de um conhecimento novo.


Na época de Rumi o caminho Sufi era dividido basicamente em duas linhas: A primeira, chamada   de caminho   dos   sóbrios,   com   origem   nos primeiros   Sufis   de   Bagdá,   que prezava     o caminho    do   conhecimento      e  auto-controle    e tentava   manter-se    em   bons termos   com  a ortodoxia.   
Este   caminho   está  geralmente associado ao nome do grandemestre Junayd, e tem em figuras como Al Gazalli um exemplo posterior. 
O   outro   caminho,   conhecido   como   caminho dos  “Loucos   de   Deus”,   ou   bêbados,   está associado aos grupos de Basra e ao nome de Bayazid Bistami, e tem em Al-Hallaj, que foi sentenciado à morte, um expoente posterior. 

Rumi já havia percorrido o caminho dos sóbrios e vinha vivendo de acordo com seus preceitos.   Porém, a   partir   de   seu   encontro   com   Shams,   ele   descobre   a   dimensão   do Amor, um estado tão celebrado pelos “Loucos de Deus”. 
Mas é importante ter em mente que Rumi e Shams não devem ser associados com um ou outro destes caminhos. 
Shams era um sufi solitário e selvagem, que desdenhava da incompletude daqueles que se aprisionavam a qualquer dos dois caminhos. Um mestre, para ser digno desse título, deveria aniquilar-se na verdade e queimar suas concepções a respeito do caminho místico. 
Shams, que em persa significa Sol, buscava um companheiro que compreendesse seu ardor, e se transformasse ele também, em fogo.




E para que Rumi pudesse atingir sua plenitude,   ele   precisava   queimar,   tornar-se  um   sol.   
É   o   próprio    Rumi quem  diz:   “Eu estava cru, e quando encontrei Shams fui cozido e me consumi”.

Mevlana (Rumi),  abandonou os livros, o estudo, seus discípulos e reputação para mergulhar na presença de Shams.

É nesta época que Rumi é introduzido aos Giros e às cerimônias de Zikr, e de sua madrassa começa a transbordar a música e poesia. 

Mas da mesma forma com que surgiu, Shams some repentinamente, deixando Rumi ser consumido   no   fogo   do   Amor   e   da   Saudade   que   ele   o   havia   apresentado   e   que   sua separação abrasava. 

É de seu desespero que brotam suas poesias, que lamentam a saudade e a separação do Amigo que havia se tornado o espelho para sua alma, e em cujos olhos ele contemplava o Amor que buscava.

"Shamsuddin está eternamente vivo em meu coração. 

Shamsuddin é a generosidade de toda alma. 

Shamsuddin é o brilho do dia, 
Shamsuddin é céu que gira. 
Eu não sou o único cantando, Shamsuddin, Shamsuddin! 
Os rouxinóis cantam dos jardins, E os falcões nas montanhas. 
A beleza da noite estrelada é Shamsuddin. 
O jardim do Paraíso é Shamsuddin. 
O Amor, a compaixão e a gratidão são Shamsuddin. 
Ó Deus, mostre-me aquele local interno, 
Onde sentamos juntos 
Com Shams entre nós e eu ao seu lado. 
Ó Shams, você é a esperança de todo coração, 
Aquele por quem todo amante espera. 
Ó Shams, retorne! 
Não deixe minha alma em ruínas!"



Rumi enviou discípulos e o próprio filho em busca de Shams, apelando por sua volta. E quando   seu   filho retorna   com   Shams,   novamente   eles mergulham em   seus   mistérios, transformando   um   ao  outro. Mestre   e   discípulo,   amante,   amado   e   amigo, todos   os limites se consomem na plenitude da Presença divina. 

"O amigo é o espelho para Alma, 
Não respire na face do Espelho, ó minha alma! 
Pois o espelho da alma nada mais é que a face do Amigo." 

Rumi e Shams são as personificações do encontro que também é desencontro entre duas grandes almas. Estar diante da face do Sagrado é encontrar-se e perder-se no mesmo instante. 
A entrega ao divino transmutado em amor humano revela a tamanha grandeza desse derramamento de nascentes em um mesmo rio que se torna oceano e permite o banhar de ambos nesta luz resplandecente que é digna de muita reverência e total silêncio frente aos “Imperadores da luz divina”.

Os planetas, as galáxias e os astros resplandecem de luz, luz esta que provém do Astro Rei. Rumi simboliza a simetria de todo cosmo, de toda atmosfera que depende do calor para sobreviver. Sua transcendência depende tão somente desta mensagem de sabedoria que ecoa e vêm do universo e em Shams se sintetiza na mais sublime comunhão de duas vidas, duas almas que brilham sobre a aurora da revelação da luz eterna. Eles se doam mutuamente tornando-se apenas um. O UM que Rumi enxerga na expressão do Divino na face do mestre Shams.

A morte de Shams também está envolta em mistérios e alguns autores sugerem que ele tenha    sido assassinato    por  discípulos   invejosos.   
Depois  da  morte   de  Shams, Rumi mergulha na saudade novamente e se deixa consumir por inteiro. Mas desta vez emerge pleno na compreensão de que a separação é somente um véu, imposto pelo próprio ser humano   que   insiste   em   perpetuar   sua   cegueira   e   ignorância.   
Ele   vê   que   a   luz   que contemplava em Shams era a Luz da Presença Divina em si, e também a Luz de sua própria   Essência.
Nesta   transformação,   (Rumi) Mevlana   pode contemplar a   própria   realidade como expressão da unidade, que revela eternamente a beleza e perfeição divinas. 

É deste processo que nasce toda sua arte.

Nasce também o caminho que ele incita o ser humano a percorrer, composto da busca pela compreensão da potencialidade humana e das amarras que o aprisionam aos níveis mais baixos da expressão do seu eu. Esta é a parte crucial de seu legado, que muitas vezes é ignorado devido à apreciação meramente poética e superficial de seu ensinamento.


"Ó tolo, que com centenas de consentimentos e com teus próprios pés 

Ingressas em uma jornada em direção a um destino cruel! 

E em teus caprichos buscas estes sonhos de riqueza, poder e domínio! 
Fale de Ti mesmo agora! 
Tu possuis uma essência humana ou a essência bestial de um asno? 
Não vês claramente o mal dentro de ti, 
Ou então, irias te odiar com toda tua alma!" 

Mas   se   Mevlana   acusa   com   rigor   e indignação, também   instrui   e   orienta.   Ele   traz a recordação da real dimensão pessoal e também de sua total potencialidade. 
Ele agita as almas   a  romperem     os  grilhões   que os  aprisionam,    abrasando     os  corações    com   a recordação do verdadeiro amado. 
Rumi     penetra    na  taverna    dos  amantes compartilhando o  vinho   do   amor    divino, declarando as belezas e perfeição do Amado. 
Mas esta dimensão não deve ser associada com os êxtases que levam à perda de consciência, ou à dimensão dos “loucos de Deus”, que   tanto   atiçam as   fantasias   dos   aspirantes nessa   jornada.   
Na   presença   de   Deus   esta embriaguez nada mais é que a sobriedade última da contemplação de Sua Face. 
Por isso, Rumi declara ser necessária maturidade para trilhar o caminho do Amor, assim como para aprender os segredos do Giro. Pois mesmo ele, só foi iniciado nestes mistérios após longos anos de treinamento e transformações. 
"Ó irmão, 

Traga o puro vinho 

Do amor e da liberdade. 
Sirva o Vinho, 
Pois a vida sem Amor 
Não é nada a não ser morte lenta. 
O chão e o teto dos Céus 
Estão todos tingidos com vinho! 
Mas quem jamais viu 
Um único copo de vinho em nossas mãos?"





Para   se   aproximar   de   seu   ensinamento   é necessário   penetrar   no   real   significado   do caminho que ele apresenta. Mas, o real significado deve ser buscado muito além de uma apreciação superficial.
Ibn Arabi, um Sufi reconhecido como um dos maiores místicos da História e cujo enteado e discípulo, Sadruddin Konevi, foi amigo de Rumi, diz:

“O místico   não   pode   indicar   sua dimensão a  outros   homens;   ele   pode   apenas indicá-la simbolicamente para aqueles que começaram a experimentá-la por si próprios”. 

Esta trajetória não se limita a leituras e aquisição de conhecimento, seja intelectual ou poético. É necessário   que   haja   uma   transformação   que   nasce   a   partir   do   esforço   em mudar a si mesmo e desenvolver as suas potencialidades latentes. 

Além      do   Mathnavi,     sua   maior   obra,   ele   deixou    poesias    que   foram    copiladas posteriormente, sendo a mais famosa, o Divan. 
Rumi também escreveu o Fihi-ma-Fihi que    é   uma compilação      de   aulas   e  ensinamentos      sobre diversos    temas    dirigidos diretamente a seus discípulos.


O    impacto    de   sua  obra   exerceu    transcendeu os   limites   do  Sufismo     e  do  Islão.   
A universalidade e humanismo de suas idéias e posturas foram responsáveis por reunir à sua volta discípulos de todas as religiões e tradições. 
Após sua morte, seu exemplo e conhecimentos foram perpetuados, influenciando não apenas todos os grandes místicos da história, mas artistas, filósofos e pensadores. 
O    que   distingue    sua  poesia    e  idéias,  bem como     sua   trajetória  pessoal,    é  a  forma apaixonada       com   que   buscou,    nas expressões da    Beleza    e  do   Amor,  os  elementos intrínsecos da relação do homem com o Criador e com a própria criação. 



Rumi busca esta Beleza na música, no Giro dervixe, na poesia e em toda forma de arte, mas principalmente na própria vida. 
Rumi   é   o   poeta do   Amor,   mas   de   uma   forma de   amor   que não   está   baseado   em fantasias   e ilusões,   mas na   luta   desesperada   e   apaixonada da   alma em encontrar   a Verdade.

"Em verdade, somos uma só alma, eu e tu. 
Aparecemos e nos ocultamos, 
Tu em mim, eu em ti. 
Aqui está o sentido profundo da minha relação contigo, 
Já não existe entre mim e ti, 
Nem mim, nem tu. 
Somos o espelho e o rosto ao mesmo tempo. 
Estamos ébrios do cálice eterno, 
Somos o bálsamo e a cura, 
Somos a água da juventude e aquele que a verte. 
Quando o teu olho se tornou num olho para o meu coração, 
Meu coração cego se inundou nessa visão. 
Vi que eras o espelho universal para toda a eternidade: 
E eu disse: "No final, eu encontrei a mim mesmo: 
Em seus olhos conheci o caminho da luz"

O Giro situa-se no centro do legado que foi deixado por Rumi e mostra ao ser humano o seu verdadeiro e glorioso destino, embriagando os corações e deixando-os sedentos da Presença do Amado. 
A cada passo ao redor de si, o dervixe busca seu coração e clama pelo único Nome que reside dentro dele e que é o foco de seu anseio. A cada passo ao redor do centro, ele busca aproximar-se do Senhor desse Nome, e com Ele compartilhar do êxtase sublime da intimidade. E isso é feito dentro da esfera do amor, onde o amante se dissolve e se confunde com o Amado e ambos tornam-se um.

A cerimônia do Giro foi ensinada a participantes do Instituto Nokhooja na Turquia, há quase vinte anos atrás. A permissão para que pudéssemos ensinar o Giro e a tradição, foi concedida pelo Xeique (já falecido), da Ordem que recebeu a responsabilidade de preservar a tradição Mevlana  a partir do momento em que os encontros das ordens Sufis foram proibidos, e seus participantes perseguidos, por Kemal Ataturk a partir da década de 30 do século XX. 
Atualmente a proibição permanece, mas não existem mais perseguições e o Sufismo já pode ser praticado com certa liberdade, desde que mantenham uma “aparência” mais folclórica, como manifestação cultural.

                                            

E nessa luta é possível atingir a compreensão de que tudo o que separa a alma de   seu   objetivo   é   a própria   incapacidade  do   ser   humano   em   atingir sua   plenitude. 
Somente   após   remover   os   véus   causados   pela própria   cegueira   é   que   será   possível penetrar nesta   saudade   e   amor,   que   faz   girar   o universo,   eternamente   inebriado   pela beleza e perfeição.


Rumi, além de ser considerado um dos maiores poetas sufi, foi o fundador da tariqa mawlawiya, a ordem dos Dervixes Dançantes. 
Sua principal característica é o sama, uma dança giratória. Através da execução ritual do sama os dervixes mawlawis entram em êxtase.  Ao sama associa-se, ainda, como importantes elementos da tariqa, a música e a poesia, que exerceram grande influência no império otomano, indo além de suas fronteiras.



A morte de Mevlana aconteceu em 17 de Dezembro de 1273, e segundo as descrições “transportaram seu corpo através da cidade, o povo e os nobres descobriram a cabeça, mulheres, homens e crianças assistiram ao seu enterro. 
Estavam presentes membros e discípulos de comunidades e nações distintas - cristãos, judeus, turcos, árabes e gregos - cada qual com seu livro sagrado. Leitores do Corão liam belos versículos, os sacerdotes rezavam as preces da ressurreição com voz melodiosa, grupos de músicos recitavam e cantavam versos e canções compostos por Mevlana.

Mas para Mevlana a morte é o dia do retorno ao Amado, e deveria ser celebrada como o casamento da alma   com  Ele.   Em  suas   próprias   palavras:   “Prazerosos,   alegres,   ébrios, aplaudamos o encontro final com o Amado”.


"Sou a névoa da manhã e a brisa da tarde. 

Sou o vento na copa das árvores e as ondas contra o penhasco. 

Sou todas as ordens de seres, e galáxias girantes, 
a inteligência imutável, o ímpeto e a deserção. 
Sou o que é e o que não é. 
Tu, que conheces Jalaludin. 
Tu, o Um em tudo, 
Diz quem sou. 
Diz: eu sou 
Tu."




SAMA - RUMI



ALÉM DE VOCÊ E EU




A ALQUIMIA DO AMOR




O MUNDO ALÉM DAS PALAVRAS




POEMA SUFI 




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