domingo, 18 de agosto de 2013

LUZES DO MUNDO - RAMANA MAHARSHI


Bhagavan Sri Ramana Maharshi

Sri Ramana Maharshi nasceu em 30 de dezembro de 1879 em Tiruchuzhi, uma cidade na província Tamil Nadu, ao sul da Índia. Seus pais lhe deram o nome de Venkataraman.

Nada havia de anormal no rapaz. Possuía um corpo forte, se destacando no futebol, artes marciais, natação, entre outros esportes. O único fator incomum a respeito de Venkataraman era o seu sono profundo, inabalável, e sua assombrosa força física. Seu sono era tão profundo que em certas ocasiões seus colegas – que jamais tinham a oportunidade de vencê-lo em um combate – aproveitavam-se de seu estado para carregá-lo para fora de sua cama, dar-lhe uma surra, e então “devolvê-lo” ao seu quarto, sem que Venkataraman jamais suspeitasse do ocorrido.


O garoto não manifestava nenhum interesse em espiritualidade, meditação ou religião. Seus únicos contatos com assuntos espirituais foram uma vez quando ouviu falar da montanha sagrada Arunachala – o que lhe despertou profunda reverência e interesse – e outra quando teve a oportunidade de ler o Periyapuranam, que é uma coleção de biografias de 63 santos da seita Saiva [adoradores de Shiva] da religião hindu. Entretanto, aos seus 16 anos de idade, em julho de 1896, ocorreu uma experiência que transformou a sua vida para sempre. Ele mesmo a descreve:

“Foi mais ou menos seis semanas antes de deixar Madurai permanentemente que a grande mudança ocorreu na minha vida. Aconteceu inesperadamente. Eu estava sentado sozinho em uma sala do primeiro andar da casa de meu tio. Eu raramente adoecia, e naquele dia minha saúde estava normal, mas repentinamente eu fui tomado por um violento medo de morrer. Nada no meu estado de saúde explicava isso, e eu não tentei justificar esse medo, nem procurei suas causas. Eu apenas senti ‘Vou morrer’ e comecei a pensar o que fazer a respeito disso. Não pensei em consultar um médico, meus parentes ou meus amigos; eu senti que precisava resolver o problema por mim mesmo, ali mesmo.

O choque do medo da morte fez minha mente voltar-se para o interior, e eu disse a mim mesmo, sem na verdade moldar em palavras: ‘Agora a morte chegou; o que isso significa? O que está morrendo? O corpo morre.’ Então imediatamente comecei a dramatizar a ocorrência da morte. Eu deitei com os meus membros esticados e duros como se estivesse ocorrendo o rigor mortis, e imitei um cadáver para tornar a inquirição mais realista. Prendi a respiração e mantive os lábios firmemente fechados a fim de não deixar escapar nenhum som, de maneira que nem mesmo a palavra “eu” e nem qualquer outra palavra pudesse ser pronunciada. ‘Então’, disse a mim mesmo, ‘este corpo está morto. Ele vai ser carregado duro até a pira de fogo e lá será queimado e reduzido a cinzas. Mas com a morte deste corpo eu morro? Este corpo é o Eu? Ele está silencioso e inerte, mas eu sinto a força total de minha existência, e até mesmo a voz do “eu” dentro de mim, separadas do corpo. Então eu sou o espírito que transcende o corpo. O corpo morre, mas o Espírito que o transcende não pode ser tocado pela morte. Isso significa que eu sou o Espírito Imortal’. Isso tudo não foi um pensamento obscuro; foi uma verdade viva que brilhou através de mim e que percebi diretamente, quase sem o processo do pensamento. ‘Eu’ era algo muito real, a única coisa real no meu estado presente, e todas as atividades conscientes ligadas ao meu corpo estavam centradas naquele ‘Eu’. A partir daquele momento o ‘Eu’ ou ‘Si-mesmo’ focou a atenção em si mesmo por meio de uma poderosa fascinação. O medo da morte desapareceu de vez, e a absorção no Eu Real continuou ininterrupta desde então.”


Neste momento sua individualidade dissolveu-se no Eu Real, e aquele jovem indiano que nada tinha de promissor transforma-se em um dos maiores Sábios que a Índia já conheceu. Na terminologia espiritual, ele havia “Realizado o Eu”, ou “Alcançado a Iluminação/Libertação”; o que normalmente surge apenas como resultado de anos de intensa prática espiritual (sadhana), para o jovem Sábio surgiu espontaneamente, sem nenhum prática ou desejo prévios.

Movido por um chamado interior, Venkataraman abandona seus estudos e sua vida em sociedade, e parte rumo à Tiruvannamalai, a cidade em que se situa a lendária montanha de Arunachala. Chegando ao seu destino, o garoto iluminado joga fora todo o seu dinheiro e posses, e entrega-se a desfrutar profundamente o estado de Paz e Beatitude recém descoberto. Sua absorção nesta Consciência era tão profunda que ele permanecia desligado de seu corpo e de todo o mundo exterior por dias a fio. Durante os dois ou três anos em que permaneceu imerso neste profundo estado de samadhi [transe], mosquitos e escorpiões comiam parte de seu corpo, seu cabelo e unhas cresceram enormemente, sendo que se alimentava apenas quando um transeunte apiedado com o estado deplorável do seu corpo lhe oferecia algo para ingestão. No final deste período Venkataraman começou aos poucos a retomar a sua vida física normal – transição esta que se completou apenas alguns anos depois – mas sem nunca perder a consciência de seu verdadeiro Eu.


Na medida em que o jovem Sábio foi retomando consciência do mundo exterior, passou a irradiar uma aura de Paz que começou a atrair buscadores interessados em beneficiar-se de sua presença. Em seus primeiros anos Venkataraman permanecia em completo silêncio, sendo que eventuais perguntas de buscadores que o visitavam ou moravam em sua proximidade eram respondidas sendo escritas em pedaços de papel ou na areia. Àquela época, um de seus primeiros seguidores, impressionado pela sabedoria e santidade daquele garoto, deu-lhe o nome de Bhagavan Sri Ramana Maharshi, pelo qual passou a ser conhecido desde então. “Bhagavan” é um título honorífico dado a grandes mestres iluminados, significando “Senhor”; “Sri” é um prefixo de respeito; “Ramana” é contração de seu nome de batismo; “Maharshi” significa “Grande Sábio”.

Mesmo depois de vários anos, quando Sri Ramana voltou a falar, falava muito pouco, de forma que seus ensinamentos eram transmitidos por outros meios. Ao invés de dar instruções verbais ele constantemente emanava uma força silenciosa que aquietava as mentes daqueles que estavam em sintonia com ela, e ocasionalmente até mesmo lhes dava uma experiência direta do estado no qual ele mesmo estava perpetuamente imerso. Anos depois ele tornou-se mais disposto a dar ensinamentos verbais, mas, mesmo então, os ensinamentos silenciosos sempre estavam à disposição daqueles que sabiam fazer bom uso deles. Ao longo de sua vida Sri Ramana insistia que esse fluxo silencioso de energia representava seus ensinamentos em sua forma mais direta e concentrada. A importância que ele dava a isso é indicada por suas assertivas freqüentes no sentido de que seus ensinamentos verbais serviam apenas àqueles que não podiam compreender seu silêncio.



Na medida em que os anos passaram ele tornou-se cada vez mais famoso. Uma comunidade cresceu em volta dele, milhares de visitantes vinham vê-lo, e durante os últimos vinte anos de sua vida ele era largamente conhecido como o Santo mais popular e reverenciado da Índia. Alguns desses milhares eram atraídos pela paz que eles sentiam em sua presença, outros pela propriedade com a qual ele guiava buscadores espirituais e interpretava ensinamentos religiosos, e outros simplesmente vinham falar de seus problemas e sofrimentos. Quaisquer que fossem as razões, praticamente todos que tinham contato com ele saiam impressionados com a sua simplicidade e humildade. Quando uma vez o então presidente da Índia prestou uma visita a Mahatma Gandhi, este lhe disse “se você está buscando a Paz, sugiro que visite Ramana Maharshi.”

Bhagavan estava disponível aos visitantes vinte e quatro horas por dia, uma vez que dormia e vivia em um espaço comunitário, o qual estava sempre acessível a todos, e seus únicos bens eram a sua roupa do corpo, um pote de água, e sua bengala. Embora fosse adorado por milhares como uma encarnação divina, ele se recusava a permitir que qualquer um lhe tratasse como alguém especial, e recusava receber qualquer coisa que não fosse igualmente dividida entre todos a sua volta. Sri Ramana trabalhava ativamente junto em sua comunidade e por muitos anos acordou diariamente às 3:00 da manhã para preparar comida para os residentes no ashram. Seu sentimento de igualdade era legendário. Os visitantes eram todos tratados com respeito e consideração iguais, fossem eles mendigos, executivos, membros da realeza, ou animais. Seu senso de equanimidade se estendia até mesmo às árvores locais: ele desencorajava seus seguidores a arrancarem flores ou folhas das árvores, e buscava assegurar-se de que a retirada de toda e qualquer fruta delas fosse feito da maneira que a árvore sofresse apenas a quantidade mínima de dor.

Assim, ao longo de mais de 50 anos, vivendo aos pés da montanha Arunachala, Sri Ramana deu ensinamentos e transformou as vidas de inúmeros visitantes e buscadores. Boa parte de seus ensinamentos foram anotados e publicados, constituindo assim uma herança espiritual inestimável para a humanidade, apontando um caminho direto e eficaz, acessível a todos aqueles que desejem alcançar o estado de Liberdade do qual tais ensinamentos emanaram.


Sri Ramana Maharshi deixou o corpo físico em 14 de abril de 1950, padecendo de câncer. Em nenhum momento, entretanto, demonstrou qualquer espécie de preocupação ou aflição com a grande dor física que seu corpo sofreu nos últimos anos, ou com a perda do mesmo, permanecendo sempre com o mesmo olhar imerso em Paz.

A sabedoria de Bhagavan é insofismável, não está limitada às palavras, ela toca a essência de cada um: é a força do silêncio, a Upadesa Sharanam, que irradia de Sri Ramana para todos. Ao codificar o caminho da autoconscientização, Sri Ramana criou, efetivamente, a solução para todos os que buscam o autoconhecimento. Até então, o acesso à sabedoria dos Mestres era exclusivo dos reclusos do silêncio. Sri Ramana mostrou um caminho possível de ser trilhado livremente, conforme as condições da vida moderna.

Ensinamentos:

Os ensinamentos de Sri Ramana apontam que o Ser (Self ou Atman) ou Pura Consciência é a única realidade e o verdadeiro “Eu” de todas as coisas, e que isso já é naturalmente assim, não sendo necessário “alcançar” a Iluminação, mas apenas remover os obstáculos – mentais, imaginários – que aparentemente a ocultam

Sri Ramana Maharshi ensinava que nós já somos o Eu Real, o ilimitado oceano de Ser-Consciência-Beatitude; que a iluminação está sempre presente em todos, agora mesmo, sendo que apenas a nossa ilusão de sermos uma alma individual (jiva), ou um ego, é que obscurece a consciência do nosso verdadeiro estado. Bhagavan apontava, assim, que todo o esforço espiritual é direcionado não para alcançar a Realização – pois esta já está perenemente presente – mas sim para afastar todos os obstáculos à percepção do nosso Ser.


Para Sri Ramana esses obstáculos não são reais ou substanciais, mas sim imaginários, produtos da mente. São meros conceitos, pensamentos. Explicava que todos esses pensamentos provêm de um pensamento raiz, do qual dependem, sendo que tal pensamento central é o ego, ou o que o Maharshi chamava de “pensamento-eu” (aham-vritti). Eliminando-se o ego (ahamkara), toda matriz da ilusão colapsa; o sofrimento e a limitação são banidos da vida irrevogavelmente. Dessa forma, a prática que ele aconselhava era a autoinquirição, a prática de investigar a natureza e a origem desse pensamento-eu, o que é feito direcionando-se toda a nossa atenção para o sentimento interior “eu sou”, o sentimento não-dual de apenas ser. A ferramenta por ele criada foi a de utilizar a pergunta “quem sou eu?” ou “de onde eu venho?” para trazer a mente de volta à inquirição toda vez que ela se desviasse rumo aos pensamentos ou percepções sensoriais. Com isso, o ego, que sobrevive apenas na dualidade, fica impedido de se conectar com qualquer outro pensamento ou conceito – tais como “eu sou isso”, “eu sou aquilo”, “eu sou assim, e não daquele jeito”, “eu faço isso”, “eu sei aquilo”, etc. – o que o força a retornar para a sua origem, o Eu Real, que é pura Consciência não-dual. Como alternativa a este caminho, Bhagavan ensinava que a entrega completa a Deus, ao Guru, ou ao Eu Real, também tem o mesmo efeito de extinguir o ego. Todas as outras formas de prática espiritual (sadhana), dizia ele, são indiretas, servindo apenas para o amadurecimento do discípulo e purificação da mente, sendo que ao final o buscador deverá cruzar por uma dessas duas portas (auto-inquirição ou a entrega).


À parte disso, o Maharshi enfatizava a importância de estar na presença de um ser realizado, um Guru ou Jnani, uma vez que a energia e presença de um ser assim têm um grande poder de purificar e silenciar a mente daqueles que estão à sua volta e em sintonia com ele. Porém, também ensinava que para todos está disponível a presença do verdadeiro Guru, o Eu Real, que está brilhando no coração de qualquer um, e pode guiar o caminho daqueles que voltam sua face em busca dele.

Bhagavan sempre enfatizava a necessidade de transcender o ego aqui e agora, e por esse motivo raramente adentrava em discussões metafísicas – tais como reencarnação, outros planos de existência, chakras, criação do universo, etc. – e desencorajava interesses espirituais que não estivessem diretamente ligados à experiência do Eu Real. Entretanto, é possível encontrar algumas discussões a respeito, sendo que mesmo nelas a sua forma direta e intensa de direcionar o buscador à percepção da verdade está sempre presente.

Nunca ninguém foi aconselhado pelo mestre a deixar seu trabalho, família ou vida em sociedade e tornar-se um monge ou renunciante. Sri Ramana sustentava que todos os seres humanos têm um destino a cumprir e que, independentemente do estilo de vida que caiba a cada um, todos podem sempre, onde quer que estejam e quaisquer que sejam suas atribuições, voltar-se para dentro em busca da Paz do Self.


Seu dever é SER, e não ser isso ou ser aquilo. “Eu sou o que eu sou” resume toda a verdade. O método é “fique em silêncio”. O que significa o silêncio? Significa destrua-se, pois qualquer forma é causa de problemas.


Não há mistério maior que este: que sendo a Realidade nós buscamos alcançar a Realidade. Nós pensamos que existe algo ocultando a Verdade e que isso deve ser destruído a fim de que possamos atingir a Verdade. É ridículo. Chegará o dia em que você vai rir de todos os seus esforços pretéritos. Aquilo que será no dia em que você rir também é aqui e agora.


A liberação, que é bem-aventurança, é natural a todos.

A ignorância é uma ilusão da mente, uma falsa sensação.

Apenas o ego é prisão, e a sua própria natureza, 
livre do contágio do ego, é liberação.

Não há engano maior do que acreditar que a liberação, 

Que está sempre presente como a sua verdadeira natureza, será alcançada em um tempo futuro.

Até mesmo o desejo pela liberação é fruto da ilusão.

Portanto, permaneça em silêncio.




Se você permanecer como mera consciência, “eu sou”, a ignorância não existirá. Portanto, a ignorância é falsa; apenas a Consciência é real.


Para a aquietação da mente não há nenhum outro meio mais eficaz do que a autoinquirição. Através dos outros métodos a mente apenas parecerá ter se aquietado, mas não será extinta; ela surgirá novamente.

Este é o método direto. Todos os outros métodos só podem ser praticados retendo-se o ego, e neles surgem muitas dúvidas, enquanto que a pergunta última é apenas atacada no final. Mas neste método, a pergunta última é a única pergunta e ela é levantada desde o começo.


A autoinquirição o leva diretamente à Auto-Realização, pois remove os obstáculos que fazem você acreditar que o Eu Real ainda não foi alcançado.

A diferença entre a meditação e a autoinquirição é que a meditação requer um objeto sobre o qual se foca a atenção, enquanto que na autoinquirição há apenas o sujeito e nenhum objeto.


Pedir que a mente destrua a mente é como fazer do ladrão o policial: ele irá com você e vai parecer que ele prendeu o ladrão, mas nada será feito. Então o que você precisa fazer é olhar para dentro e ver de onde a mente surge. Uma vez que você vir a Fonte da mente, ela desaparecerá.


O primeiro pensamento a surgir na mente é o pensamento-eu. Todos os outros inumeráveis pensamentos surgem apenas depois do pensamento-eu e têm nele sua origem. Em outras palavras, apenas depois do pronome de primeira pessoa, “eu”, surgir, é que os pronomes de segunda e terceira pessoa, “tu” e “ele”, ocorrem para a mente; estes não subsistem sem aquele.

Como todos os outros pensamentos só podem surgir depois do aparecimento do pensamento-eu, e como a mente nada mais é do que um conglomerado de pensamentos, é apenas [voltando a atenção ao pensamento-eu] através da inquirição “Quem sou eu?”  que a mente será extinta. Além disso, o pensamento-eu – implícito na investigação “Quem sou eu?” – destruirá todos os outros pensamentos e, como a vareta usada para avivar a fogueira, no final ele mesmo será consumido.


Você não precisa eliminar nenhum falso “eu”. Como pode o “eu” eliminar a si mesmo? Tudo o que você precisa fazer é encontrar a Fonte do “eu”, e permanecer lá. O seu esforço só pode levá-lo até este ponto. A partir daí o Transcendental vai tomar conta de si mesmo. Você não pode fazer mais nada então. Nenhum esforço pode chegar até Ele.


O pensamento-“eu” é como um fantasma que, apesar de ser impalpável, surge simultaneamente com o corpo, vive e desaparece junto com ele. A consciência “eu sou o corpo/este é meu corpo” é o falso eu. Abandone-a. Você pode fazer isso buscando a fonte do sentimento “eu”. O corpo não diz “eu sou”. É você que diz “eu sou o corpo”. Descubra o que é este “eu”; busque sua fonte e ele desaparecerá.







Nenhum comentário:

Postar um comentário