domingo, 11 de agosto de 2013

LUZES DO MUNDO - MONJA COEN


Monja Coen - A Mulher nos Jardins de Buda


Monja Coen Sensei (30 de junho de 1947), nascida Cláudia Dias Baptista de Souza, é uma monja zen budista brasileira e missionária oficial da tradição Soto Shu com sede no Japão. Monja Coen também é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista criada em 2001 com sede em Pacaembu, São Paulo. Seu pai era filho de portugueses e sua mãe oriunda de família paulista quatrocentona (Dias Baptista), de grandes proprietários de terra. Ela é prima de Sérgio Dias Baptista, mais conhecido por seu trabalho com a banda Mutantes.

Criada no Cristianismo, dedicou-se para estudar no Zen Center of Los Angeles em 1983, logo depois partindo para ao Japão e convertendo-se à tradição budista deles no Convento Zen Budista de Nagoia, Aichi Senmon Nisodo e Tokubetsu Nisodo. 
Antes de ser religiosa foi repórter em diversos jornais do Brasil.

De volta à São Paulo, em 1995, liderou atividades no Templo Busshinji, tornando-se a primeira mulher e a primeira monja de descendência não-japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil por um ano. A Monja Coen é mais conhecida por fazer palestras, participar de reuniões e diálogos inter-religiosos.

Participa de caminhadas meditativas em parques de várias cidades do Brasil. Membro do Círculo de Cooperação Inter-Religiosa de São Paulo, da Iniciativa das Religiões Unidas (URI). Conselheira cofundadora do Conselho Parlamentar pela Cultura de Paz (Conpaz), da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Segue os ensinamentos de Buda na preservação do meio ambiente, na defesa dos direitos humanos e em prol de uma cultura de paz.


A trajetória da Monja Coen está longe de ser estática

Conhecida hoje por praticar e divulgar o zen-budismo, Monja Coen já teve longos cabelos, foi jornalista e até trabalhou em banco. Mudou de cidade algumas vezes, casou e se separou, teve uma filha. Foram várias mudanças em sua vida até embarcar em uma viagem radical. Tinha quase 30 anos quando começou a fazer meditação.

Foi em 1973, nos cinco meses e vinte dias que passou presa em uma cela solitária no presídio de Frövi, na Suécia, por traficar LSD, que a paulistana Claudia Dias Batista de Souza descobriu a meditação. Moça de classe média alta do Pacaembu, ex-aluna do colégio de freiras Sion e filha de José Soares de Souza, braço direito do ex-governador Adhemar de Barros, Claudia sentia alívio ao repetir o mantra om. 'Aquilo me dava sensação de liberdade e trazia um pouco da transcendência que eu buscava nas drogas.' 

Prima dos mutantes Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, ela levava uma vida boêmia e já havia tentado o suicídio. Mas só viria a abandonar esse estilo de vida cinco anos depois de deixar a prisão. Em 1978, quando morava na Califórnia com um dos cinco maridos que teve - Paul Weiss, ex-iluminador de palco do roqueiro Alice Cooper -, conheceu o zen, uma das vertentes japonesas do budismo. 

Encantada, deixou o rapaz, mudou- se para uma comunidade espiritual, raspou a cabeça e se converteu. Cinco anos depois ela se entregaria de vez à vida monástica com um novo nome: Shin Guetsu ou monja Coen.

A prática, aparentemente contemplativa e estática, gerou tamanha identificação que a moveu para o Japão, em 1983, onde ingressou no Mosteiro Feminino de Nagoya e foi nomeada Monja Missionária da Tradição Soto Zenshu para a América do Sul. Com a mudança de vida, deixou também para trás o nome Cláudia Dias Baptista de Souza e adotou o nome Coen. 


De volta ao Brasil, em 1995, provocou diversas mudanças locais, como a abertura dos portais do templo Busshinji, no bairro da Liberdade, em São Paulo, para pessoas de origem não japonesa, e a eleição de mulheres nas assembleias gerais da comunidade. Foi eleita, na época, Presidente da Federação Budista do Brasil. Hoje, Monja Coen é Primaz Fundadora da Comunidade Budista Zen do Brasil. 

Primeira mulher a ocupar a presidência da Federação das Seitas Budistas no Brasil, ela percorreu caminhos muitas vezes inexplorados e foi capaz de realizar profundas transformações em sua vida

A seguir, ela conta como aconteceram os movimentos fundamentais em sua vida e transmite a visão budista sobre toda essa transformação.


"Foram quase 20 anos de questionamentos e dúvidas que, com a prática zen, se transformaram. Por volta dos 13 anos, comecei a questionar a tradição religiosa de minha família e de meus professores. Nos anseios naturais da juventude, queria que os adultos fossem coerentes com os princípios religiosos que pregavam, mas havia uma brecha, uma lacuna. Era como se não fossem capazes de vivenciar o que pregavam ou diziam seguir. 

Minhas primeiras questões nessa época eram: o que é deus? Por que nascemos? O que é a morte? Qual o sentido da vida? As questões eram fortes e incessantes. 

Não participei mais de atividades religiosas e me tornei ateia. Anos mais tarde, fui conhecer o Zen Center de Los angeles, cidade onde então eu trabalhava e residia. Foi como chegar em casa. 

A maneira da prática meditativa - chamada Zazen – tinha tudo a ver com o que eu sentia. Tudo era familiar: o cheiro do incenso, os procedimentos, a postura. Em pouco tempo, pedi minha ordenação monástica. O abade, um mestre de origem japonesa, me fez esperar três anos. Finalmente, recebi os preceitos monásticos – o sentido de minha vida. 

Fui para o Japão e ingressei no mosteiro feminino de Nagoya, onde fiquei por oito anos. Fui nomeada monja e retornei ao Brasil. 

A vida é movimento e transformação. Somos corresponsáveis pelas nossas escolhas e decisões. Muitas pessoas não sabem disso e se consideram à mercê da vida, do destino. 

Quando percebemos que estamos tecendo nossa vida, há uma grande e definitiva mudança. Nos tornamos coautores da nossa história. Tudo que já nos aconteceu faz parte da tapeçaria da vida. Aceitação e compreensão de nosso passado são importantes para apreciarmos o presente.

Casei com 14 anos de idade, querendo autonomia de minha família, tive uma filha, meu marido me abandonou, voltei a morar com minha mãe. Cuidei durante dois anos e meio da minha menina, sem sair de casa, lavando fraldas e cueiros, passando e sendo muito, muito feliz. Meu pai, preocupado, intimou que eu fosse ou estudar ou trabalhar. Fiz supletivo, entrei na Faculdade de Direito. Também comecei a trabalhar no Jornal da Tarde. A vida profissional de jornalista era muito mais instigante que os estudos acadêmicos.

Abandonei a faculdade e me tornei jornalista profissional. Foi intenso e transformador. Vivi a época do final da guerra do Vietnã, dos monges se imolando em praça pública. Como era possível ficar sentado em meditação enquanto seu corpo ardia em chamas?

Os Beatles meditavam. Outros músicos, poetas, escritores, filósofos meditavam. O que seria a meditação? Responderia meus anseios e dúvidas? Fui morar em Londres, onde me sentia livre. Andava nas ruas sem que ninguém soubesse quem eu era, minha filiação, minha origem. Era muito agradável. Passei a me vestir de forma excêntrica. Concordava com a atitude de fazer amor e não fazer a guerra. Deixei de pentear os cabelos longos, usava as mesmas calças jeans até que rasgassem e ficassem quase brancas de tanto uso. Não era consumista. Era socialmente engajada em pensamentos de mudanças que pudessem equilibrar a sociedade, onde houvesse menos desperdício de um lado e menos fome de outro. 

Mas eu havia ido sem minha filha. Quando voltei ao Brasil não queria mais me separar dela e passei a dar aulas de inglês para me manter. Meus primos eram Os Mutantes [os músicos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias]. 

Depois de anos, reencontrei-os e os segui em suas turnês pelo Brasil. Certa feita, fomos todos juntos assistir a um show de Alice Cooper e lá encontrei um companheiro. Era norte-americano, responsável pela iluminação do espetáculo. Fui para a Flórida e nos casamos. Ajudava-o nos palcos, nos grandes espetáculos de rock'n 'roll. Foi muito agradável. Tentamos voltar ao Brasil para viver com minha filha, mas ele não conseguiu sucesso profissionalmente e voltamos para os Estados Unidos, dessa vez para a Califórnia. Fui trabalhar no Banco do Brasil, como funcionária local. Iniciei minha prática zen, me divorciei e fui morar na comunidade.

Cada passo, apenas um novo passo. Nunca senti que estivesse dando saltos ou pulando degraus. As mudanças surgiam naturalmente, sem grande esforço. 

Tornar-me monja foi uma grande alegria e realização. Algumas pessoas se preocupam, me perguntam: "mas como foi para você cortar os cabelos?". E eu digo que foi apenas cortar os cabelos. Nada mais. Simples. Assim como é, é.

Outro dia, encontrei uma foto minha com 30 anos de idade. Naquela época, eu pesava 47 quilos, fazia três horas de balé clássico por dia, trabalhava no Banco do Brasil, tinha os cabelos longos, um cão dinamarquês e um marido norte-americano. Olhei a foto e fiquei com saudades dessa moça. Já não sou mais ela. Como tudo que existe, estamos num processo incessante de transformação. Há nascimento, velhice, doença, morte. Há causas e condições. Há o estado de Nirvana, de paz, de tranquilidade, que surge da compreensão clara do sentido da vida. A morte não é uma inimiga. A doença pode ser uma aliada no processo de crescimento e amadurecimento.
Tudo depende da maneira com a qual lidamos com nossa existência. Podemos acessar o ícone Buda e reler nossa história e a da humanidade com olhos de sabedoria, ou podemos fechar esse ícone, querer que não exista, e viver dramas, sofrimentos e angústias.

Que todos os seres iluminados e benfazejos nos abençoem e protejam na construção de uma cultura de paz."   Monja Coen


 Amor
Pense em alguém que você goste muito.
Do passado, do presente ou do futuro.
Pode ser um bichinho, um brinquedo, uma pessoa, uma criança, uma situação agradável.
Pense e sinta.
Sinta esse amor, agora, aqui, em você.
Conecte-se com o amor que habita você.
Comece a incluir nessa amorosidade todas as pessoas que estão próximas a você.
Vá expandindo sua capacidade de amar.
Inclua todas as pessoas que você conhece.
Agora inclua as que você não conhece.
Inclua próximas e distantes.
Inclua pessoas que você jamais viu.
Os povos africanos, asiáticos, australianos.
Os povos e tribos de toda a Terra.
Inclua em seu amor todo o planeta, com árvores e insetos.  Flores e pássaros.  Mares, rios, oceanos.
Inclua a vegetação da Amazonia e da Pantagonia.
Inclua o Mar Morto e o Deserto do Saara.
Não deixe o Pequeno Príncipe de fora.
Inclua os Lusíadas, a Odisséia, Kojiki,
Inclua toda a literatura mundial, um pouco de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Shakeaspeare, um tanto de Saragosa, uma gota de Jorge Amado, banhado por Herman Hesse e Amon Oz.
Inclua todas as religiões.
Como se não houvesse dentro nem fora.
Imagine, como  John Lennon, que o mundo é um só.
O mundo é uno.  O mundo, o universo, o pluriverso é um só.
Nós somos unas e unos com o uno.
Perceba.
Isto que digo é a verdade.
E só há esse caminho.
Inúmeras analogias, linguagens étnicas, expressões regionais e temporais para tentar atingir o atemporal, o fluir incessante, incadescente, brilhante, da vida em movimento transformador.
Somos a vida da Terra.
Somos a vida do Universo.
Somos a vida do Multiverso.
E quando nossos pequeninos corações humanos se tornam capazes a ir além deste saquinho de pele que chamamos o eu, nos contatamos com a essência da vida. Que é a anossa própria essência e de tudo que é, assim como é.
Algum nome?  Nenhum nome?
Caminhemos.Tornamo-nos o caminho a cada passo.
Que cada passo seja um passo de paz.
Que o novo ano se abra com a abertura dos corações-mentes de todos nós seres humanos.
Abertura para o infinito.
Abertura para a imensidão.
Abertura para a ternura.
Abertura para a sabedoria.
Abertura para a compaixão.
Que todos os seres em todas as esferas e todos os tempos se beneficiem com esse amor imenso que aqui e agora juntas, juntos, nos tornamos. 
E ao nos tornarmos o amor tudo se torna vida e vida em abundância.  
Ame e manifeste esse amor agora.
Mãos em prece
Monja Coen





        



A VISÃO DA VIDA E DA MORTE



SERGINHO GROISMAN ENTREVISTA  MONJA  COEN



EU MAIOR - ENTREVISTA



CONTEXTO GERAL - PARTE 1



CONTEXTO GERAL - PARTE 2



Um comentário:

  1. depois de ouvir a monja falar, me interessei muito, pena que nao é aqui em porto alegre rs

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