domingo, 14 de julho de 2013

LUZES DO MUNDO - CACIQUE RAONI



Cacique Raoni : A floresta como luta

Raoni. Com este nome só, evoca-se todo o mistério e o poder do povo Caiapó, do qual ele é um dos guias. Obstinado e insubmisso, esse chefe carismático leva há 4 décadas uma verdadeira cruzada para tentar salvar a floresta amazônica que o viu nascer. Pai fundador do movimento para preservação das últimas florestas tropicais, patrimônio inestimável da humanidade, ele arriscou muitas vezes sua vida por essa nobre causa.
Para além da Amazônia, Raoni representa o símbolo vivo da luta levada pelas últimas tribos do mundo para proteger uma cultura milenar, em conexão direta com a natureza: uma luta pela vida. Centenas de gerações separam nossa época dos usos e costumes dessas populações ameaçadas. Raoni atravessou esse abismo imenso durante uma única existência, conservando estoicismo e dignidade. Encontrou-se com os grandes deste mundo mas vive em uma cabana simples e nada possui.

Primeiros anos, primeiros combates


Raoni nasceu no Mato Grosso, em uma vila chamada Krajmopyjakare (que hoje se chama Kapôt). Ele é filho do líder Umoro, do ramo conhecido como metuquitire (etnia caiapó, um grupo indígena das terras planas do Mato Grosso e do Pará, ao sul da Bacia Amazônica e ao longo do Rio Xingu e seus afluentes).

Sendo os Caiapós nômades sua infância foi marcada por muitas mudanças de endereço, deslocações incessantes, e por numerosas guerras tribais. Com 15 anos e guiado por seu irmão Motibau, Raoni começou a instalar seu labret, o famoso adorno feito de disco de madeira pintado de forma cerimonial e portado sobre o lábio inferior, em reconhecimento dos guerreiros prontos a morrer por sua terra.

Raoni é fundador do movimento para preservar as últimas florestas tropicais, ele arriscou sua vida muitas vezes por essa causa, lutando pela proteção de uma cultura milenar em conexão direta com a natureza.
Foi em 1954 que Raoni e os caiapós encontraram pela primeira vez os homens brancos, e conheceram nessa época os irmãos Villas Boas, famosos indigenistas brasileiros. E foi com eles que Raoni aprendeu um pouco da língua portuguesa e passou a conhecer mais sobre o mundo dos homens brancos. Ficara um ano inteiro perto dos irmãos Villas Boas.
No final dos anos 50, ele encontrou-se pela primeira vez com um presidente do Brasil, na época Juscelino Kubitschek.



Mais tarde em 1964, cruzara o caminho do rei Leopold III da Bélgica, que estava em expedição na região. Sinal do destino já que será outro belga que ira transformar o curso da sua existência, alguns anos mais tarde. 
O encontro com o belga em questão, o jovem cineasta Jean Pierre Dutilleux, ocorreu em 1973. Fascinado pela personalidade e o carisma inacreditável de Raoni, Dutilleux voltara a visitá-lo alguns anos mais tarde com a ideia de dedicá-lo seu primeiro filme documentário longa-metragem.

O filme “Raoni” foi apresentado em Cannes em 1977 e tornou-se um sucesso de críticas. Marlon Brando filmou-o para sua versão inglesa. O filme foi indicado ao prêmio Oscar e exibido no Mann’s Chinese Theatre de Los Angeles. O Brasil aclama o filme e Raoni torna-se o índio mais famoso do pais continente. Este toma então consciência de que Kritako, o homem do nariz de faca, apelido indígena de Dutilleux, e sua câmera, deram para ele o poder de divulgar as preocupações do povo Caiapó quanto ao desmatamento que ameaça seu meio ambiente.
O ator Marlon Brando, que estava no auge de sua fama, aceitou ser filmado na sequência de abertura. O aumento do interesse dos meios de comunicação brasileiros pela questão ambiental fez dele um porta-voz natural da luta pela preservação da floresta amazônica.

Em 1984, apareceu em público armado e pintado para a guerra a fim de negociar com o ministro do interior, Mário Andreazza, a demarcação de sua reserva. Durante a reunião com o ministro, deu-lhe um puxão na orelha e lhe disse: "Aceito ser seu amigo. Mas você tem de ouvir índio."


1989 – Uma campanha internacional em dezessete países

Seu encontro com o cantor Sting, que o visita no Xingu em 1987, vai propulsar sua luta na cena internacional. Em 12 de outubro de 1988, Raoni participou com Sting, em São Paulo, de uma conferência de imprensa da turnê Human Rights Now da Anistia Internacional.

Foi depois do encontro com o cantor Sting no Parque Indígena do Xingu que Raoni alcançou reconhecimento internacional. Diante do impacto do evento, Sting, sua esposa Trudie Styler e o cineasta belga Jean-Pierre Dutilleux vieram a ser co-fundadores da Rainforest Foundation, organização criada para sustentar os projetos de Raoni. Dentre esses projetos, a maior prioridade era a demarcação dos territórios caiapós, que estavam sendo ameaçados por invasões de terras de colonos.


Em fevereiro de 1989, Raoni foi um dos mais ferozes opositores ao projeto da barragem de Kararaô. As emissoras de televisão do mundo inteiro estavam presentes para recolher suas propostas em Altamira (no Pará), no momento de uma gigantesca assembléia de chefes que ficou registrada nos canais daquela cidade. Raoni alertou o mundo de que o desmatamento além de destruir as tribos indígenas, compromete o futuro de todos.

Com ajuda do cantor Sting (que lhe foi apresentado por Dutilleux) Raoni deixa o Brasil pela primeira vez e lança, em 17 países, um pedido de ajuda. Divulgado pela maior parte das redes de televisão, contribuirá para a tomada de consciência: o desmatamento não só destrói as últimas tribos indígenas como compromete o futuro de todos.

Doze fundações “Rainforest” (Selva Virgem) foram criadas com o objetivo de recolher fundos para ajudar na criação de um parque nacional na região do Xingu, na Amazônia, com uma superfície de mais ou menos 180.000km².



Em 1993, ela realiza seu sonho : unificar os territórios indígenas do Xingu, aqueles já demarcados e os que não o são ainda. Isso constitui a maior reserva de floresta tropical protegida do planeta (180 000 km2). Esta primeira campanha internacional permite também um larga tomada de consciência do grande público.

Este parque, situado nos estados do Mato Grosso e do Pará, constitui hoje uma das maiores reservas de florestas tropicais do planeta. Depois desta campanha, o G7 irá desbloquear os fundos necessários à demarcação de todas as reservas indígenas existentes hoje no Brasil.


O presidente francês Mitterrand, foi o primeiro a apoiar a iniciativa de Raoni; seu apoio trouxe um formidável impulso nesta cruzada memorável. Seguiram, dentre outros, Jacques Chirac, o rei Juan Carlos da Espanha, o Príncipe Charles e o Papa João Paulo II...

Embaixador internacional da luta pela
preservação da floresta e dos povos
amazônicos


Depois de 1989, Raoni Metuktire transformou-se em embaixador do combate pela proteção da floresta amazônica e dos povos indígenas e efetuou numerosas viagens pelo mundo. Entre suas viagens pelo mundo, desta-se uma visita aos esquimós da costa norte de Québec, no Canadá, em agosto de 2001. Ou a visita ao Japão em maio de 2007. Voltou também à França em 2000, em 2001 e em 2003, recebendo o apoio de Jacques Chirac.

Os diferentes povos indígenas da região do Xingu, dos quais Raoni é o mais célebre representante, lutam para preservar sua cultura ancestral. Raoni encontra-se regularmente com grandes líderes, mas continua vivendo em uma simples cabana, pouco possuindo de bens materiais. Os presentes a ele ofertados são sistematicamente redistribuídos a toda a comunidade.
Durante suas intervenções midiáticas, Raoni aparece, quase sempre, com um cocar de penas amarelas e com brincos e colares caiapós. 
É imediatamente reconhecível pelo seu botoque tradicional, que estica o seu lábio inferior e o qual ele porta com grande orgulho.


Raoni contra Belo Monte

Em uma entrevista à televisão francesa e divulgada na ocasião de uma turnê europeia em maio de 2010, Raoni declarou guerra ao projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que ameaça os territórios indígenas situados na beira do Rio Xingu, no estado brasileiro do Pará: “Eu pedi aos meus guerreiros para se preparar para a guerra. Também falei com as tribos do Xingu. Nós não deixaremos isso acontecer. Nós iremos matar todos os brancos que se atreverem a construir essa barragem”.

Durante a viagem, ao mesmo tempo em que assegurou a promoção de seu livro Raoni, mémoires d’un chef indien (Raoni, memórias de um chefe indígena), Raoni foi recebido pelo antigo presidente francês Jacques Chirac, que novamente lhe apoiou (através da Fondation Chirac) pelo seu projeto, no coração da Amazônia brasileira, de um instituto que portaria seu nome e que seria destinado a preservar a cultura de seu povo e a biodiversidade da floresta. 
projeto prevê a criação de um hospital, de um centro de pesquisas da biodiversidade da floresta, de escolas e de um núcleo de comunicação ligado à internet. Raoni foi recebido, durante a viagem, pelo príncipe Alberto II de Mónaco, muito engajado na proteção da natureza, mas não pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, que, no entanto, o havia convidado formalmente em setembro de 2009, durante sua visita oficial ao Brasil.

No dia 1 de junho de 2011, o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) último entrave à realização da Barragem de Belo Monte, concedeu a licença ao consórcio de empresas brasileiras “Norte Energia”. Essa informação foi divulgada pelos meios de comunicação e redes sociais do mundo inteiro, acompanhada de uma foto de Raoni chorando, dizendo que suas lágrimas haviam sido provocadas pelo anúncio da validação definitiva da Barragem de Belo Monte. Indignado, o chefe desmentiu formalmente essa informação em seu site oficial: “Eu não chorei por causa da autorização de construção e o começo dos trabalhos no canteiro de obras de Belo Monte. Enquanto eu viver, eu continuarei lutar contra essa construção...Eu quero saber quem deu essa foto e propagou essa falsa informação (…). Será preciso que a presidente Dilma me mate em frente ao Palácio do Planalto. Aí, somente, vocês poderão construir a Barragem de Belo Monte”.
Em resposta a todos aqueles que pretendem o desencorajar, Raoni, que recentemente recebeu o apoio de personalidades internacionais como James Cameron, Sigourney Weaver e Arnold Schwarzenegger, lançou uma petição internacional em cinco línguas contra a Barragem de Belo Monte no seu site oficial. 


Em 2011 Raoni estava em visita à Europa por conta de sua campanha contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, e em 27 de setembro recebeu o título de cidadão honorário da cidade de Paris das mãos do prefeito Bertrand Delanoë, em reconhecimento por sua luta em defesa da preservação da Floresta Amazônica.

Pedido de apoio internacional do Cacique Raoni e
dos representantes dos povos indígenas do Xingú
contra a usina de Belo Monte.


“Quando os portugueses chegaram ao Brasil, nós índios já estávamos aqui e muitos morreram e perderam enormes territórios, perdemos muitos dos direitos que tínhamos, muitos perderam parte de suas culturas e outros povos sumiram completamente. Nosso açougue é o mato, nosso mercado é o rio. Não queremos mais que mexam nos rios do Xingu e nem ameacem mais nossas aldeias e nossas crianças, que vão crescer com nossa cultura.

Não aceitamos a hidrelétrica de Belo Monte porque entendemos que a usina só vai trazer mais destruição para nossa região. Não estamos pensando só no local onde querem construir a barragem, mas em toda a destruição que a barragem pode trazer no futuro: mais empresas, mais fazendas, mais invasões de terra, mais conflitos e mais barragem depois. Do jeito que o homem branco está fazendo, tudo será destruído muito rápido.

Já fizemos muitas reuniões e grandes encontros contra Belo Monte, como em 1989 e 2008 em Altamira-PA, e em 2009 na Aldeia Piaraçu, nas quais muitas das lideranças daqui estiveram presentes. Já falamos pessoalmente para o presidente Lula que não queremos essa barragem, e ele nos prometeu que essa usina não seria enfiada goela abaixo. Já falamos também com a Eletronorte e Eletrobrás, com a Funai e com o Ibama. Já alertamos o governo que se essa barragem acontecer, vai ter guerra. O Governo não entendeu nosso recado e desafiou os povos indígenas de novo, falando que vai construir a barragem de qualquer jeito. Quando o presidente Lula fala isso, mostra que pouco está se importando com o que os povos indígenas falam, e que não conhece os nossos direitos. Um exemplo dessa falta de respeito é marcar o leilão de Belo Monte na semana dos povos indígenas. 

Nós estamos aqui brigando pelo nosso povo, pelas nossas terras, pelas nossas florestas, pelos nossos rios, pelos nossos filhos e em honra aos nossos antepassados. Lutamos também pelo futuro do mundo, pois sabemos que essas florestas trazem benefícios não só para os índios, mas para o povo do Brasil e do mundo inteiro. Sabemos também que sem essas florestas, muitos povos irão sofrer muito mais, pois já estão sofrendo com o que já foi destruído até agora. Pois tudo está ligado, como o sangue que une uma família.

O mundo tem que saber o que está acontecendo aqui, perceber que destruindo as florestas e povos indígenas, estarão destruindo o mundo inteiro. Por isso não queremos Belo Monte. Belo Monte representa a destruição de nosso povo. 

Para encerrar, dizemos que estamos prontos, fortes, duros para lutar, e lembramos de um pedaço de uma carta que um parente indígena americano falou para o presidente deles muito tempo atrás: “Só quando o homem branco destruir a floresta, matar todos os peixes, matar todos os animais e acabar com todos os rios, é que vão perceber que ninguém come dinheiro”.

ANIFESTO DO POVO KAYAPÓ - Aldeia Kokraimoro, 05 de junho de 2013.

Nós, 400 caciques e lideranças Mebengôkre/Kayapó de todas as aldeias das Terras IndígenasKayapó, Menkragnoti, Badjonkôre, Baú, Capoto/Jarinã, Xicrin do Catete, Panará e LasCasas, localizadas nos estados do Pará e Mato Grosso, com apoio dos caciques do povo Tapayuna e Juruna, também do estado Mato Grosso, juntos estivemos reunidos na AldeiaKokraimoro-PA, margem direita do rio Xingu, entre os dias 03 a 05 de junho de 2013.
Comunicamos ao governo brasileiro e a sociedade que repudiamos os planos do Governo Federal e do Congresso para diminuir os nossos direitos tradicionais e direitos sobre nossas terras e seus recursos naturais.










Um comentário:

  1. Amo e respeito o povo Indígena porque são um povo que vive em harmonia com a natureza.

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